segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Senhor do impossível - Lloyd John Ogilvie

NOVA A CADA MANHÃ
Jeremias

Muitas das cartas que recebo revelam a necessidade de esperança. A cada semana centenas de pessoas me informam, de muitas maneiras, que sua esperança está a acabar-se.

O que faz você quando pede a Deus que realize algum milagre e, em lugar disso, obtém mais problemas? Como se pode ter esperanças quando pede ajuda a Deus e nada acontece?

Você é uma pessoa muito abençoada. Não é possível produzir esperança autêntica. O que você perdeu foi seu senso de expectativa e seu ardente desejo. Você não perdeu a esperança. A verdadeira esperança não é uma capacidade produzida por meios humanos e adquirida mediante atitudes corretas ou pensamentos positivos. A esperança é um dom que se relaciona de um modo inseparável e inexplicável com o Doador. Você precisa de Deus muito mais que das respostas dele a seus problemas. Quando experimentamos um relacionamento íntimo com ele, a esperança será um dos mais agradáveis subprodutos. A esperança duradoura não é um ocasional anseio para que Deus atue em nosso favor. Antes, é uma inabalável confiança de que ele é a nossa vida, agora e para sempre, e que nem a vida nem a morte pode separar-nos dele.

Você receberá esperança ao reconhecer a Deus, real¬mente, como o Senhor da sua vida.

Ficaremos desapontados se buscarmos a esperança como um fim em si mesma. A esperança dinâmica vem de algo ou de alguém fundamentalmente confiável. Nenhum amigo e nenhuma pessoa amada, nenhum líder e nenhuma instituição pode ser a fonte da esperança. Essas pessoas ou coisas jamais tiveram esse propósito. Pessoas, causas, movimentos, partidos — ou o fraco desejo de que em dado momento as coisas vão dar certo — sempre nos decepcionam.

"Há esperança?" E o que muitos perguntam hoje, unindo-se ao coro de outros cuja expectativa está imersa no vazio. Amor e honestidade devem responder sim e não. Não, não há esperança no pedido que fazemos a Deus; sim, há esperança no que Deus deseja ser em nós e realizar por nosso intermédio.

Todos nós temos um anseio interior pelo progresso, pelo sucesso e pelo cumprimento de nossos sonhos e planos mais acalentados. Algumas pessoas, que esperam ansiosas pelo melhor, têm sido abençoadas com uma disposição radiante. Mesmo as mais positivas das pessoas, quando enfrentam problemas e perplexidades, são forçadas a pedir ajuda a Deus a fim de resolver as coisas de acordo com a pressuposição delas. Mas é quando ele não satisfaz às nossas expectativas, ou não marcha conforme o nosso ritmo, que somos abençoados com a crise de desejar Deus por Deus, e não pelo que ele realiza como cumpridor de nossos planos. É neste nível mais elevado que nasce a esperança.

A transição turbulenta de uma esperança utilitária para a esperança real é a história da vida de Jeremias. Ele é conhecido como o "profeta chorão". Na realidade, o profeta se tornou um homem de profunda esperança. Jeremias não vivia na superfície do mar turbulento da história da Judá; ele foi um mergulhador que desceu às profundezas e apareceu com uma pérola genuína posta à prova. Ele recebeu o dom da esperança verdadeira e partilhou o segredo.

"E aconteceu que, depois que Israel foi levado em cativeiro e Jerusalém foi destruída, Jeremias sentou-se a chorar e pranteou esta lamentação sobre Jerusalém, dizendo. . ." E o que ele disse está cheio de pesar e por fim de indignação, que se aproxima da blasfêmia, acerca da providência divina. Como pôde Deus permitir tal coisa? O povo havia pecado, sim. É bem verdade que se haviam feito de surdos para as advertências mais ardentes do profeta. O povo escolhido adotou falsos deuses e aliados políticos incrédulos e desobedientes, sem dúvida. Mas Jeremias havia orado durante todo esse tempo. Deus não atentou para suas orações? Não se importou?

"O Esperança de Israel, e Redentor seu no tempo da angústia, por que serias como estrangeiro na terra? Como viandante que se desvia para passar a noite?" Jeremias poderia aceitar o juízo de Deus com respeito à apostasia de seu povo, como havia predito, bem como confirmar a permissão de Deus para a queda de Jerusalém e o exílio dos seus mais honrados cidadãos — mas desde que tudo isso fosse sem angústia e sofrimento tão terrível, com uma pergunta séria acerca da extensão do castigo de Deus. Foi então que Jeremias clamou em alta voz por amparo pessoal, a fim de suportar a sua dor, como abandonado e esquecido. Imaginava que estivesse do lado do Senhor através da angústia que seu povo experimentava, mas tudo o que obteve em troca desse mesmo povo que tentou ajudar foi rejeição, ódio e hostilidade.

Do mesmo modo como muitos só se satisfazem com a esperança de que Deus venha cumprir a sua visão, Jeremias chegou a duvidar da intervenção divina. Jeremias tinha visto aflição, mas era a vara da ira de Deus que ele questionava. Sentia-se sozinho na escuridão da aparente rejeição do Todo-poderoso. Deus não apreciara seus esforços por tantos anos? Aprisionado, ele sentia-se sozinho e abandonado.

Quando orava, parecia não haver resposta. "Ainda quando clamo e grito, ele não admite a minha oração. Fechou os meus caminhos com pedras lavadas, fez tortuosas as minhas veredas. Fez-se-me como urso à espreita, um leão de emboscada. Desviou os meus caminhos, e me fez em pedaços; deixou-me assolado" (Lamentações 3:8-11). A esperança dele, de que Deus atenderia ao seu chamado, engolfava a sua alma. O ridículo e a zombaria do povo nada era comparado ao silêncio de Deus.

"Já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no Senhor" (La-mentações 3:18). Ele estava próximo do ponto de ruptura. Ele estava sendo quebrantado para experimentar a esperança verdadeira.

Deus se lembrava? Sim, Jeremias! "Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. Minha alma continuamente os recorda e se abate dentro em mim" (Lamentações 3:19-20).

Então, de repente, um raio da verdade penetrou no calabouço da memória de Jeremias. Ao alcançar bem o fundo, ele se agarrou a uma lembrança que transformou o seu complexo de consternações. Nas profundezas do desespero, ele conseguiu o dom da esperança. E o Doador era o dom. "Disso eu me recordo, portanto tenho esperança." O "Ah, como?" de Jeremias se transforma em: "Ah, eis a esperança!"

O profeta emerge de sua noite escura com três grandes convicções que levam a uma experiência liberadora de esperança inabalável. A primeira baseia-se nos atos passados de Deus. "As misericórdias do Senhor não têm fim" (v. 22a). Deus não havia completado a sua obra com o seu povo ou com seu profeta. Ele tinha planos. O que Jeremias pensava ser o fim, na verdade era um ponto-e-vírgula na preparação de um novo começo — e tudo por causa da paciência de Deus.

Nosso processo de cura começa quando pensamos que toda esperança se foi, e então nos lembramos de como Deus tem sido perseverante conosco, apesar de nossa rebelião e resistência. Pense nos momentos em que você foi poupado dos resultados de decisões erradas, resistência à orientação de Deus e recusas clamorosas em fazer a sua vontade.

Em seguida, Jeremias lembrou-se das compaixões do Senhor que nunca falham. "Pois suas compaixões nunca falham". Deus não volta atrás em sua palavra. "Assim serei contigo: não te deixarei nem te desampararei" (Josué 1:5). Desejamos saber por que Deus não provoca um curto-circuito em nossa liberdade humana e constrói um mundo melhor. E, contudo, suas compaixões persistem e ele usa até mesmo os nossos erros para o nosso crescimento e para a sua glória.

Deus não desiste. Cristo foi misericórdia encarnada em seu ministério, graça imerecida em sua morte e fonte de verdadeira esperança na sua ressurreição. Os atos poderosos de Deus dispersam a desesperança. Ele é o Senhor que intervém, que invade, o Senhor da criação e da história humana.

A cruz e o túmulo vazio lembram-nos que Deus pode usar o pior para realizar o melhor. Cristo derrotou o poder do pecado na cruz e a morte na manhã da Páscoa. Nossa magra esperança é substituída por uma esperança viva.

A ressurreição de Cristo é a base de nosso crescimento na esperança.

A esperança nasce quando morrem as nossas falsas esperanças de fazer com que o Senhor obedeça às nossas ordens. Somos crucificados na morte da esperança temporária e ressuscitados para a esperança eterna. Estamos vivos para sempre mediante o nascer de novo. O céu começou. Nada pode destruir esse acontecimento. A compaixão de Deus nos salvou do desespero — com nós mesmos, com os outros e com o mundo.

Jeremias descobria que as misericórdias de Deus eram novas a cada dia. Sua antecipação da paciência e do perdão de Deus o levou à fidelidade do Senhor. "Renovam-se a cada manhã; grande é a tua fidelidade" (Lamentações 3:23). A esperança renasce dia a dia, a todo momento, em cada desafio e crise; a cada intervenção, quando a ressurreição acontece de novo dentro e ao redor de nós. As misericórdias de Deus não apenas se renovam a cada manhã, elas transformam as noites em dias.

Uma época de desesperança não deveria nos compelir, em vão, a uma busca da esperança, mas a uma busca de Deus.

Mas essa introspecção apenas preparou o profeta para a descoberta mais importante acerca da esperança. Experimentamos a esperança genuína em união com o próprio Deus. "A minha porção é o Senhor, diz a minha alma, portanto esperarei nele" (Lamentações 3:24).

Chegamos, com Jeremias, ao Santo dos Santos: o coração de Deus. Nada mais pode nos dar esperança duradoura.

Jerusalém estava vazia da glória passada. O que sobrava? Deus! Somente ele era a porção de Jeremias. E esperança. A recém-achada intimidade florescia na esperança.

Jeremias havia mudado. Em vez de desejar a esperança do Senhor, ele quis experimentar a esperança no Senhor. A esperança insuficiente fora substituída por uma esperança ativa e inextinguível.

Quando as tragédias, as perdas e a dor chegarem, quebrantando os nossos corações, e as coisas não saírem como planejamos, podemos ainda experimentar a esperança.

A verdadeira esperança deve sempre combater a esperança de origem humana.

O amor de Deus, mais a fé, é igual à esperança. É uma esperança que não nos desaponta, tão estável e segura quanto o próprio Deus.

Passemos, agora, ao passo seguinte do crescimento na esperança. A verdadeira esperança nos auxilia nos problemas e decisões do dia-a-dia.Recebemos orientação de como esperar e pelo que esperar na vontade de Deus para nós.Quando ele é a nossa esperança, temos o desejo de executar a sua vontade revelada. E podemos esperar com confiança, sabendo "que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28). Isso é esperança!

A esperança e o Espírito de Deus são um. Quando estamos cheios do Espírito, temos esperança. Quando obstruímos o fluxo do Espírito e exigimos que o seu poder execute nossos planos, a esperança diminui e desaparece.

Viver sem Deus no mundo é, afinal, enfrentar a desesperança.

"Cristo em vós, a esperança da glória" (Colossenses 1:27). Aí está de novo: a nossa esperança procede do Espírito de Cristo.

Seja o que for que a vida nos dê ou nos tire, é uma bênção se rompe o laço da esperança utilitária que sempre nos desaponta, a fim de podermos experimentar uma esperança tão certa quanto o próprio Senhor. A esperança que Jeremias encontrou nova a cada manhã, é nossa a cada momento, pois o Senhor não é apenas a nossa porção — ele é o nosso poder, poder para esperar!


Davi Emanuel

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