terça-feira, 16 de junho de 2009

O Senhor do impossível - Lloyd John Ogilvie

UMA PESSOA SEGUNDO 0 CORAÇÃO DE DEUS
Davi

O segredo de receber o poder do Senhor do impossível é um coração aberto e receptivo. Davi exemplifica esse segredo. Ele foi chamado o maior santo e também o maior pecador do Antigo Testamento. Talvez seja por isso que o amamos tanto. Admiramos a sua força e compreendemos a sua fraqueza. Nosso coração se eleva com o seu em seus salmos de louvor, e identificamos nossa própria falibilidade em sua confissão e contrição.

A vida de Davi é um ingrediente essencial para nossa compreensão do Senhor do impossível, porque nela percebemos o que Deus pode fazer com aqueles que a ele se entregam como canais de seu poder, e buscam o seu perdão nos fracassos.

Ele contradiz o mito de que o vigor humano, ou a perfeição, são condições para experimentar o poder desafiador do Senhor.

Davi era um homem segundo o coração de Deus. "Achei a Davi, o filho de Jessé", disse o Senhor, "um homem segundo o meu coração, que fará a minha vontade". Esse espantoso elogio afirma que Deus tem um coração, e que o segredo de nossa vida abundante é receber o seu coração em nossos corações.

O que queremos dizer quando falamos do coração de Deus? O coração dele é a sua natureza essencial: sua inteligência, mais o seu amor e bondade e mais a sua vontade soberana. A maior maravilha do ser humano é que podemos pensar os seus pensamentos, receber e expressar o seu amor e desejar a sua vontade. A capacidade de nosso coração corresponde de forma sublime à do coração de Deus.

Um coração segundo o coração de Deus é um em que o coração de Deus é reproduzido — intelectual, emocional e volitivamente.

Davi tem a honra de ser um dos maiores homens do Antigo Testamento, porque ele ansiava pelo coração de Deus. Do segundo rei de Israel descobrimos o propósito básico da vida: ser pessoas segundo o coração de Deus. Acima de tudo, aprendemos que o mais profundo desejo do Senhor é o de sermos argila nas suas mãos, para que nos molde, como o Oleiro, segundo a sua imagem — com os seus pensamentos em nosso cérebro, com o seu Espírito em nossas emoções e com a sua vontade em nossa vontade, de modo que possamos seguir a sua orientação.

O Salmo 23 reflete a humildade de Davi na sua confiança em Deus, como supremo pastor de sua vida. Nesse precioso salmo Davi expressou a fé que lhe deu coragem como rapaz. Deus era todo-suficiente para Davi. Ele era o seu protetor, provedor e propósito. O que Davi procurava ser para o seu rebanho, Deus era para ele. O Senhor era o seu amigo e companheiro.

A maneira como Davi encarava o perigo, em completa dependência de Deus, convenceu o Senhor de que aqui estava um rapaz, logo a se tornar homem, que poderia enfrentar os perigos que sempre afligiam a Israel. A mente de Davi era receptiva, suas emoções sinceras e espontâneas, sua vontade pronta a obedecer.

Davi era um homem cativado por Deus, que desejava agradar e servir a seu Senhor mais que qualquer outra coisa.

"Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência". Enquanto Samuel estudava a face de Davi, o Senhor falou de sua escolha em voz de comando: "Levanta-te, e unge-o, pois este é ele". E assim, o idoso profeta tomou do seu chifre de azeite e ungiu a Davi, enquanto seus irmãos e seu pai observavam estupefatos. O Espírito do Senhor se apossou de Davi, e daquele dia em diante Deus confiou o seu coração ao coração pronto e receptivo do jovem pastor.

Deus está à procura dessa qualidade de coração em mim e em você. Em cada época de crise, ele busca uma pessoa cujo coração deseja o seu coração. Quando colocamos Deus em primeiro lugar em nossas vidas, ele pode nos usar. Não devemos buscar a Deus para realizar os nossos propósitos. Amemos a Deus pelo que ele é, não pelo que possa fazer por nós. Nossa idéia do que ele seria capaz de realizar através de nós, está normalmente longe da verdade. Um autêntico chamado vem sempre seguido de surpresa e mistério. Somos responsáveis somente pelo que está em nosso coração, mente, emoções e vontade. Comece aí e deixe os resultados com Deus!

O Senhor do impossível está disposto a nos ungir hoje mesmo com o seu Santo Espírito. Quando desejamos a Deus de todo o coração, ele nos concede dons especiais muito além do talento humano. Qualquer indivíduo que tenha aceitado o amor de Deus e o perdão de Jesus Cristo, e abriu o seu coração, sem reservas, numa entrega incondicional, é um candidato, tanto à tarefa humanamente impossível como à suficiência de poder sobrenatural — sabedoria para o intelecto, cura e desprendimento das emoções, determinação apaixonada de conhecer e fazer a vontade de Deus. Agora mesmo, neste instante, Deus está dizendo de mim e de você: "Levanta-te, e unge-o, pois este é ele".

Vemos o poder da unção de Davi em sua coragem. É assim que Deus opera. Depois de achar um coração segundo o seu coração, ele concede dons especiais, e, a seguir, um exemplo claro do que ele pode fazer com esse coração e com as impossibilidades dessa pessoa. Ele deseja que todos nós estejamos seguros da sua presença.

O coração de Deus em nosso coração produz uma vitalidade robusta, compreensiva em nossos relacionamentos. Quando em nosso coração mora o coração de Deus, somos atraentes, carinhosos, e ansiámos por fazer amizades duradouras. "A alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma" (1 Samuel 18:1). Porque Davi possuía o coração de Deus, havia espaço para um amigo.

Davi era o tipo de pessoa que exercia uma atração magnética nas pessoas. Ele era fiel, bondoso e atencioso. Seus companheiros estavam dispostos a viver e morrer por ele. A razão era que o Espírito de Deus se estendia através de Davi e dava e eles um senso de afirmação e auto-estima. Quando apreciamos a pessoa que somos, por causa do Espírito de Deus em nós, outros nos apreciarão e se deleitarão em nossa companhia.

Davi era um homem de emoção imensa. Suas convicções intelectuais acerca de Deus liberavam a sua expressão emocional. "Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor" (2 Samuel 6:14). Um coração cheio do coração de Deus se sente livre tanto para glorificar como para se deleitar em Deus. Não havia rigidez no relacionamento de Davi com Deus. Ele podia expressar a tristeza de sua solidão e temor ao Senhor, mas também podia dançar com fervor incontido. Quando amamos a Deus de todo o coração, podemos, sem constrangimento, expressar nossas emoções a ele, e então, aos outros. Ele deseja que lhe sejamos sinceros. Tanto no vale do desespero como nos picos da alegria, podemos dar vazão aos nossos sentimentos.

Um coração que nunca sentiu a presença de Deus na dor ou na tristeza, raras vezes expressará o seu deleite em adoração e louvor.

As chamas do Espírito de Deus em nosso coração nos deixarão radiantes e cheios de fervor. Resta-nos saber: Somos mais parecidos com Davi, dançando diante da Arca, ou com Mical, possuída de reservas e críticas corrosivas?

Davi nada tinha de enfadonho. Seu coração vivaz estava cheio de adoração exuberante, tanto em épocas de alegria como de desapontamento.

Há ocasiões quando nosso coração deve se associar de novo com o coração de Deus. Há ocasiões em que o que desejamos fazer para Deus não é o seu plano para nós. Para Davi, construir um templo para adoração de Deus parecia lógico, natural e magnânimo. Pense nos planos que temos desejado executar para Deus. Pareciam tão corretos, mas não eram o melhor de Deus. Ele possui um plano especial e singular para cada um de nós. Quando ele diz sim a uma estratégia e não a outra, somos desafiados a obedecer-lhe. A tarefa de construir o templo se destinaria a Salomão e não a Davi. E a oração de Davi orienta a compreensão intelectual, a reação emo¬cional e a obediência volitiva de nosso coração, quando Deus fecha uma porta e abre outra.

Como — perguntamos — poderia o mesmo Davi que fez esta oração e outras semelhantes registradas nos salmos, cometer adultério com Bate-Seba, a esposa de Urias, um dos seus fiéis soldados? A maneira como Davi se arrependeu do seu pecado demonstra que ele tinha um coração segundo o coração de Deus.

O que importa é como Deus lidou com Davi. Ele enviou Nata para desmascarar o rei. Habilidoso com as parábolas, Nata apontou a espada da verdade para a cons-ciência de Davi, antes que ele soubesse o que se passava. Ao dizer: "Tu és o homem!", Nata cravou a espada. O coração de Davi se quebrantou ao perceber agora, que havia partido o coração de Deus.

Nosso pecado e fracasso podem ser diferentes dos de Davi, mas, ao sermos confrontados com a sua realidade, podemos também ficar horrorizados com a apostasia de nosso coração.

Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. . . Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação, e sustenta-me com um espírito voluntário. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti" (Salmo 51:1-4, 10-13).

Pessoas de grande coração têm experimentado a angústia diante de seus pecados, ao fazer esta oração. O fato é que Deus atenta para o desejo mais profundo de nossos corações, mais profundo que os desejos mal orientados que nos colocaram em dificuldades. É seu propósito levar-nos à nossa verdadeira pessoa interior, que anseia reconciliar-se com ele. Ele nos mostra a deslealdade, o egoísmo ou a paixão que nos levou ao pecado. Depois, nos ajuda tanto a assumir o pecado como a livrar-nos dele, no clima abençoado do seu perdão.

Não se esqueça do terror do coração de Davi, quando suplica a Deus para que não retire dele o seu Santo Espírito. Mais que qualquer coisa, Davi precisava da presença perdoadora de Deus. Ele não tentou apresentar desculpas por seu pecado ou oferecer sacrifícios. Tudo o que restava a Davi para oferecer a Deus era um coração quebrantado e contato.

É tanto no sucesso quanto no fracasso que nosso coração se abre. E o coração de Deus é perfeitamente suscetível à nossa necessidade. Sempre que nos arrependemos verdadeiramente do nosso pecado, o seu coração está aberto e pronto para receber-nos. Comove-me sempre o fato de que Davi jamais se esqueceu da bondade de Deus para com ele.A memória do coração de Davi estava curada.

Da mesma forma que Davi magoou a Deus, assim também o coração de Davi estremeceu por sua família. No final, Davi teve de fazer a coisa mais dolorosa da sua vida: enviar seu exército contra o próprio filho.

Davi não culpou a Deus pela morte do filho. Ele sabia haver falhado em revelar o seu coração a Absalão. Sua dor era um misto turbulento de perda e de fracasso como pai.

A vida prega duros golpes aos nossos corações. Os desapontamentos com as pessoas que amamos são os que mais nos fazem sofrer. Talvez alguém que você ame esteja a dar-lhe o mesmo motivo para o lamento, como Absalão deu a Davi. Ou talvez algum amigo de sua confiança voltou-se contra você. O que fazer quando todos os esforços para ajudar uma pessoa amada são repelidos e rejeitados? É aí que você e eu precisamos, mais que tudo, de um coração segundo o coração de Deus. Nossa dor nos impele para o coração divino. Não há outro refúgio! E aí ele espera para nos ajudar. Quando oramos de coração para coração podemos contar-lhe nossa angústia e receber o seu amor e paciência. Um dos maiores milagres do Senhor do impossível é a cicatrização de corações partidos.

Quando penso na paciência do Senhor para comigo, sinto-me investido de uma nova disposição para orar: "Senhor, ajuda-me a ser para essa pessoa a expressão de amor que tens sido para mim". Como resultado, recebo um novo coração.

Buscar um coração segundo o de Deus não é fácil. Significa desistir de nossos julgamentos, da necessidade de estarmos certos e dos sentimentos de mágoa. Essa renúncia exige a renovação diária — e às vezes a cada hora — de nossos corações com o coração de Deus. E depois de fazermos tudo, somos forçados a deixar os resultados com Deus e esperar.

Quando sentimos que falhamos miseravelmente, ele nos encoraja para um novo desafio.

Jesus Cristo veio como o coração de Deus encarnado. João compreendeu esse maravilhoso mistério: "Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou" (João 1:18). Nossa busca em conhecer o coração de Deus está agora completa. Podemos contemplar a sua glória e coroá-lo como nosso Senhor.

Agora temos a revelação clara e incontestável do significado de uma pessoa segundo o coração de Deus. Quanto mais conhecemos a Cristo, tanto mais experimentamos o coração de Deus. Quanto mais profundo for o nosso relacionamento com ele, tanto mais de seu caráter será transplantado em nós. O coração de Deus, cheio de graça e de verdade, que habitou entre nós, revelou como ele é e o que ele deseja que sejamos. Ele nos ensinou o que significa abrir sem reservas o nosso coração e colocar nele, em primeiro lugar, a pessoa de Deus. Do princípio ao fim do seu ensino, ele revelou que os nossos corações são o verdadeiro tesouro. O impacto total do ensino de Jesus é que o repositório divinamente criado para o tesouro do Espírito é o nosso coração. Jesus foi à cruz a fim de abrir os nossos corações e prepará-los para receber a sua presença ressurreta! Foi o que aconteceu no Pentecoste, quando seus seguidores ficaram cheios de seu Espírito.

Assim, para nós hoje, uma pessoa segundo o coração de Deus o alguém cuja mente, emoções e vontade estão cheios do Cristo vivo. Quando ele é o nosso propósito, paixão e poder, somos ungidos com o seu Espírito e crescemos à sua semelhança de glória em glória. Experimentamos em medida sempre crescente o que o Senhor do impossível reservou para nós. Esta vida não passa de pequena fração daquela na eternidade, na qual os nossos corações e o dele se tornam um.

Em meu coração,
Em meu coração,
Vem hoje entrar, ó Cristo;
Vem hoje entrar, sim, vem morar,
Em meu coração, ó Cristo.
Harry D. Clarke E ele vem — e entra!

0 comentários: