EBENÉZER
Samuel
Ouvindo o pulsar das esperanças e mágoas das pessoas, estou consciente de que muitos precisam de curar suas recordações. Precisamos desprender-nos do passado e avançar para o futuro como pessoas livres.
O propósito deste capítulo é ajudar o leitor a dar início a um novo passado. E ele começa agora mesmo. A maneira como lidamos com as lembranças que nos perseguem ou embaraçam é que vai determinar que tipo de episódio passado vamos reviver hoje.
Três pressuposições reforçam o que desejo dizer: (1) Se não experimentarmos a cura do passado, iremos repeti-lo; (2) sem a cicatrização das lembranças, nada aprendemos do passado; e (3) a única maneira de mudar o passado é reconhecê-lo e em seguida renunciá-lo.
Somos tentados a lidar com o passado usando maneiras impróprias. O remorso é uma delas. Muitos de nós o sentimos. Fazemos um retrospecto de nossas ações ou omissões, e a dor oculta do remorso pulsa dentro de nós. "Por que agi daquela maneira?" "Por que permiti que aquelas palavras escapassem da minha boca?" indagamos.
E quanto aos resíduos de remorsos cuidadosamente acumulados e ainda não solucionados? Fracassos, tolices, erros, oportunidades mal empregadas. E dizemos a nós mesmos: "Que direito tenho de ser feliz com lembranças desse tipo?"
Outros sentem pesar pelo passado. Embora não tão profundo como o remorso, o pesar também perturba a felicidade presente. "Se ao menos eu pudesse fazer aquilo de novo!", confessamos. As faces das pessoas que ferimos, negligenciamos ou maltratamos desfilam em nossa mente.
Ainda outros sentem aguda recriminação, ao tomar o passado em suas próprias mãos e assumir a responsabilidade do castigo. Criticamos os outros pelo que fizeram ou deixaram de fazer, ou, o que é pior, recusamo-nos a perdoar o que alguém nos fez. A lembrança se infecciona como uma farpa em nossa alma. Tomamos o controle de nossa parte do Universo e exigimos a abdicação de Deus, o único que pode nos absolver, ou aos outros pelo que fizemos ou fomos.
Ainda outros usam a renúncia. Sem purificar o passado, fazemos firmes promessas de agir de maneira diferente no futuro. Tentamos fechar a porta sobre o que já fomos, mas só conseguimos calar os dragões da memória. De vez em quando eles despertam em nossa consciência e ensaiam retomar a antiga cena numa nova situação. A renúncia de nossas lembranças parece muito espiritual. A única coisa errada é que ela não dá certo.
Na verdade, nenhuma dessas maneiras de lidar como o passado funciona. Só há um jeito de curar as recordações: É regozijar-nos com o passado! Você leu direito. Regozijar-nos. Seja o que for que nos leve a regozijar com o que aconteceu a nós e à nossa volta, inclusive as lembranças mais dolorosas, esta é a única forma de encontrar alívio. Significa voltar ao passado e superar, em comunhão com o Mestre, o que dissemos ou fizemos a alguém ou o que foi dito e feito a nós. Quando o ouvimos perdoar, a nós e aos outros, somos então capazes de perdoar a nós mesmos e aos outros. Então podemos regozijar-nos com o que aprendemos, permitir que escorra o pus da ferida e se cicatrize a carne nua da memória, agora purificada. O Senhor nada desperdiça e tudo faz para aproximar-nos mais a si e uns aos outros.
Foi isso o que Samuel fez por Israel. Samuel foi o profeta mais importante desde Moisés, e também o último juiz de Israel. No final do período dos juizes, ele se projeta como aquele que cura lembranças, ao ajudar Israel a se arrepender e a regozijar-se com os fracassos do passado. Samuel preparou Israel para uma nova era, forçando-o a abandonar as lembranças das derrotas. Através dele entramos na posse de uma palavra que é agora a senha para o poder de Deus que cura as recordações: Ebenézer!
Em hebraico, "Ebenézer" significa "a pedra de ajuda". Samuel a usou numa época de vitória sobre os filisteus. Ele colocou uma enorme pedra entre Mispa a Sem, e a chamou Ebenézer, ao declarar: ' 'Até aqui nos ajudou o Senhor'.
Ele tomava uma recordação amarga, de anos de derrota, e a substituía por um memorial, uma pedra de gratidão.
Israel se transformou pela purificação de recordações dolorosas mediante novas lembranças de louvor. Samuel tomou-se um dos grandes do Antigo Testamento porque fez de seu caráter um exemplo, ensinando a Israel a verdade liberadora do relacionamento inseparável entre a gratidão e a grandeza.
O grande profeta e juiz de Israel assumiu a liderança no período turbulento perto do final da colonização de Canaã e do início da monarquia hebréia. Ele nasceu no declínio do período dos juizes, quando Israel caiu de joelhos, não em adoração a Iavé, mas diante da humilhante derrota imposta pelos filisteus. O capítulo um de 1 Samuel revela que o profeta era um presente de Deus em resposta às orações insistentes de sua mãe.
O rapaz assimilava bem a sua lição aos cuidados de uma mãe agradecida. A atitude de gratidão de Samuel permitiu a Deus usá-lo num dos períodos de maior ingratidão de Israel.
Ana deixou seu filho com Eli, para que o auxiliasse na ministração dos atos sacerdotais diante do Senhor. Foi ali que Samuel captou a sua chamada do Senhor. Em uma época em que a palavra do Senhor era rara e as visões pouco freqüentes, ele chamou a Samuel pelo nome (1 Samuel 3:1). Primeiro, o jovem pensou que era Eli a chamá-lo. Ele não conhecia o Senhor. Após chamadas repetidas e depois do conselho de Eli de que se ele ouvisse de novo a chamada provavelmente seria da parte do Senhor, deu-se o encontro decisivo. "Samuel! Samuel!", chamou o Senhor. Samuel respondeu com as palavras que lhe ensinara Eli. Elas haveriam de se transformar na essência do poder do futuro líder: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve" (1 Samuel 3:9). O Senhor disse ao jovem Samuel que estava para fazer uma grande coisa em Israel. Teria início com o julgamento da casa de Eli, por causa dos pecados que seus filhos cometeram ao tomar a oferta de sacrifício do povo e usá-la para satisfazer a si mesmos. No dia seguinte, Eli insistiu com Samuel a que lhe contasse o que o Senhor lhe havia dito. Foi um instante de verdade com sérias repercussões para o velho sacerdote, que fora indulgente para com seus filhos. Eli confirmou que Samuel era profeta do Senhor. Daquele dia em diante todo o povo de Israel passou a respeitá-lo como tal. Posteriores revelações do Senhor vieram fortalecê-lo como profeta sobre o povo.
Deus foi fiel à sua aliança. Embora seu povo amado e escolhido persistisse no culto a Baal e a Astarote, acrescido de um vago compromisso com ele, Deus não desistiu dele.
O povo se dirigiu a Samuel para pedir-lhe que oferecesse um sacrifício que expressasse a lamentação deles e o seu anseio pelo poder de Deus. Samuel foi categórico em dizer-lhes que o Senhor só os abençoaria se todos os ídolos de Baal e de Astarote fossem removidos.
Samuel sabia que o primeiro passo para um reavivamento em Israel era varrer da terra os ídolos e falsos deuses. A cura de nossas lembranças sempre começa com uma volta decisiva ao Curador.
Quando os israelitas perceberam a aproximação dos filisteus, entraram em pânico e apelaram a Samuel para que clamasse ao Senhor por socorro. Tudo por que passara Samuel o havia preparado para esse momento. Uma geração inteira havia vivido e lutado sem testemunhar uma intervenção marcante do Senhor do impossível. A percepção do pecado de sincretismo e a impossibilidade de enfrentar o poderio militar dos invasores tornaram-nos receptivos ao que Deus sempre estivera pronto a dar -lhes. Samuel sacrificou um cordeiro. Em resposta, o Senhor apareceu na forma de uma violenta tempestade sobre os filisteus, que fugiram atemorizados. Israel aproveitou para atacar, expulsando-os até Bete-Car. O povo sabia que o Senhor vencera a batalha. A vitória do Senhor havia confirmado a contrição do povo.
Depois de ganhar a batalha, Samuel, em gratidão a Deus, construiu um altar e o chamou Ebenézer, a pedra da recordação. Diante de todo o povo ele disse: "Até aqui nos ajudou o Senhor." Ana teria ficado satisfeita, pois sua gratidão se tornou o poder da grandeza de seu filho. O agradecimento nos prepara para um futuro triunfante.
Todos nós precisamos dar graças pelo que passou e pelo que virá. A expressão "até aqui" implica em reflexão e reconsagração. Duas coisas se salientam neste episódio central da vida de Samuel para a nossa atual peregrinação.
A primeira é que a nossa capacidade de recordação, dada por Deus, deve ser enchida com a sua graça e com a nossa gratidão para compensar as severidades de nossos fracassos. Quanta sensibilidade da parte de Samuel ao chamar de Ebenézer o seu altar de louvor! Anos atrás, os israelitas gemeram de dor pela derrota no local conhecido por Ebenézer. Não lhes seria possível esquecer essa derrota até que formassem uma nova imagem deles próprios, como um povo vitorioso e abençoado.
Todas as lembranças inquietantes devem ser trazidas à superfície mediante o poder transformador do Espírito Santo. Enquanto o Espírito não colocar novas memórias em nossa mente, em substituição às que nos enfraquecem, transformar-nos-emos nas derrotas do passado. Nosso Ebenézer é o local de descanso para a gratidão no meio das fortes correntes de nossa experiência. Somos forçados a louvar e a dizer: "Até aqui nos ajudou o Senhor." Podemos reconhecer os fracassos com o perdão do Senhor, e em seguida nos despojarmos deles, regozijando-nos com o que aprendemos.
Todos nós experimentamos o poder das memórias ruins em mo¬mentos quando menos esperamos. Revivemos toda a sujeira de nossas imperfeições. Então o Senhor começa a nos ensinar através do que já passamos. Jesus nos lembra que apenas Aqueles que foram perdoados muito possuem muito amor (Lucas 7:47). E, então podemos dizer: "Ebenézer! Até aqui me ajudou o Senhor!"
A segunda coisa que aprendemos com o Ebenézer de Samuel é que o Senhor é o grande curador de recordações. Ele sabe que não podemos agarrar o presente nem nos entregar ao futuro enquanto as recordações enfraquecedoras do passado não forem apagadas. Samuel ajudou Israel a lidar com o passado e a prosseguir para o desafio do futuro.
Que recordações do passado ainda o perseguem e embaraçam? Ha recordações de mágoas que recebemos e infligimos. Pessoas de nosso passado remoto começam a surgir em nossa mente. Os demônios da culpa reprimida espreitam em nosso baú de recordações. Mas há, também, lembranças de triunfos, as quais, por acedermos à tentação, reivindicamos como realização nossa. O orgulho nos invade e nos distancia do louvor. Precisamos de um Ebenézer a lembrar-nos que foi o Senhor que nos trouxe até aqui, e não nossa inteligência ou habilidade.
Jamais chegamos à perfeição. Esta vida não pode conter tudo o que nosso Senhor preparou, e por isso precisamos da eternidade.
Nossa confiança é que o Senhor, que até aqui nos tem ajudado, há de acompanhar-nos através de toda a nossa jornada!
John Newton conhecia essa verdade. O epitáfio colocado em seu túmulo sintetiza o que Deus pode fazer quando começamos um novo passado:
JOHN NEWTON, ministro
Outrora ateu e libertino
Traficante de escravos da África:
Foi pela rica graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo,
Preservado, restaurado, perdoado
E chamado a pregar a fé
Que antes lutou tanto para destruir.
Só Cristo pode lidar com as nossas lembranças. Ele persiste conosco até que nos regozijemos. Para cada erro ou fracasso, ou para cada ação enfraquecedora ou destrutiva contra nós, o perdão é o único caminho para a liberdade que nos conduz ao futuro. Se tentarmos julgar ou expiar por nós mesmos e pelos outros, tropeçamos, e o passado fica trancado como fogo em nossos ossos.
Só podemos obter a saúde interior através do perdão — e este é a única coisa que não podemos dar enquanto não o recebemos. Perdoar aos outros é o sublime resultado de perdoar-nos a nós mesmos como perdoados pela cruz.
Lembro-me de passar por um cemitério algum tempo atrás e notar uma lápide. A palavra "perdoado" estava gravada no centro do mármore, e ao fundo estava o nome de um líder cristão pioneiro naquela cidade. "Perdoado" é o segredo de um novo passado.
E a pedra sobre o túmulo de Cristo no jardim de José de Arimatéia. Foi colocada na porta do sepulcro onde depositaram o corpo sagrado do Salvador. Mas Deus teve a palavra final. Ele removeu a pedra e ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Ele expiou na cruz todas as nossas recordações. Elas foram sepultadas com Cristo. Agora, a pedra entre nós e o futuro está removida, e uma nova vida pode começar.
Ebenézer! Até aqui nos conduziu o Senhor — até aqui nos ajudou o Senhor.
Nossa atenção, agora, pode concentrar-se no que será, em vez de no que tem sido. Deus afirma: "Dos seus pecados jamais me lembrarei" (Jeremias 31:34). E dizemos com o salmista: "Não te lembres dos pecados de minha juventude." Porque o povo de Israel se arrependeu e confiou em Deus pela vitória cm suas batalhas, um antigo Ebenézer de derrota humilhante se transformou num novo Ebenézer de humilde deleite.
Os dias turbulentos dos últimos anos da vida de Samuel tiveram muitos Ebenézeres. Mas o que ele disse em sua primeira resposta ao chamado do Senhor permaneceu como a doutrina de sua vida. "Fala, porque o teu servo ouve." O profeta ouviu com toda atenção e respondeu com expressividade. "E julgou Samuel todos os dias de sua vida a Israel" (1 Samuel 7:15).
Robert Robinson imortaliza o Ebenézer de Samuel e ajuda-nos a reclamar o nosso no hino "Fonte Tu de Toda Bênção".
Cá meu Ebenézer ergo,
Pois Jesus me socorreu;
E, por sua graça, espero Transportar-me para o céu.
Qualquer de nós que tenha erguido um Ebenézer de cura das recordações, e da alegria de antecipar o futuro, sabe que já voltou para o lar. Os problemas da vida ou o poder da morte não nos podem assaltar. Bem-vindo ao lar, agora e para sempre. Ebenézer.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O Senhor do impossível - Lloyd John Ogilvie
Postado por
DAVI E AMY
às
07:26
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