O Revestimento do Espírito
Pouco tempo depois de ter sido licenciado para pregar, fui a uma reunião do país onde eu era completamente estranho. Fiquei no hotel da vila, e ali soube que, na ocasião, não se realizavam reuniões religiosas no lugar. Havia um salão de cultos, mas estava fechado. Ao andar pela vila, fiquei horrorizado com a linguagem blasfema que ouvia entre os homens por toda parte. Consegui licença para pregar no prédio da escola no domingo seguinte, porém antes que chegasse o domingo sentia-me desanimado, e quase aterrorizado, em virtude do estado em que se encontrava aquela comunidade.
No sábado, o Senhor trouxe ao meu coração as seguintes palavras, dirigidas a Paulo pelo Senhor Jesus (At 18.9-10): "Não temas, mas fala e não te cales: porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade". Isso acalmou por completo os meus temores; mas o meu coração estava cheio de ansiedade pelo povo.
Fui para a escola e encontrei-a completamente lotada. Tirei minha pequena Bíblia do bolso e li este texto: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Expus a bondade de Deus em contraste com a maneira pela qual ele é tratado por aqueles que amou e aos quais deu o seu Filho. Argüi os meus ouvintes pelas suas blasfêmias, e, reconhecendo entre eles vários cujas pragas eu ouvira pessoalmente, com o coração cheio de ardor e com lágrimas nos olhos apontei-os, dizendo: "Ouvi esses homens rogarem de Deus pragas sobre seus companheiros." A Palavra teve efeito poderoso. Ninguém pareceu ofender-se, porém quase todos ficaram grandemente esternecidos. Terminado o culto, o bondoso dono, o Sr. Copeland, levantou-se e disse que à tarde abriria a casa de oração. Assim fez, e a casa esteve repleta, e, como pela manhã, a Palavra operou com muito poder.
Assim começou poderoso avivamento na vila, o qual, pouco depois, espalhou-se em todas as direções. Um senhor de idade me procurou e disse: "O senhor não poderia pregar em nossa localidade? Nunca tivemos ali reuniões religiosas". Segunda-feira fui a pé cumprir esse compromisso. Fazia bastante calor, e antes de chegar, comecei a sentir-me fraco para andar e com grande desalento de espírito. Sentei-me debaixo de uma sombra, à beira do caminho, sentindo-me fraco para chegar ao destino e, mesmo que chegasse, desanimado para abrir a boca diante do povo.
Quando enfim cheguei, encontrei a casa repleta. Quando pararam de cantar, lancei-me de joelhos, em estado de quase desespero. Até esse momento não tinha nenhuma idéia de que texto usaria na pregação. Ao levantar-me da oração, o Senhor me deu este: "Levantai-vos, e saí deste lugar. porque o Senhor há de destruir a cidade". Falei ao povo, o mais aproximadamente que pude recordar, onde se encontrava o texto na Bíblia, e prossegui contando-lhes da destruição de Sodoma. Esbocei a história de Abraão e Ló; de seus tratos um com o outro; de como Abraão orou por Sodoma; de Ló, o único homem piedoso achado na cidade. Enquanto isso, notei que a fisionomia dos presentes demonstrava que estavam muito zangados comigo; assumiam mesmo aspecto ameaçador, e alguns dos homens perto de mim pareciam que iam me bater. Eu não entendia isso, pois estava apenas dando, e isso com grande liberdade de espírito, alguns esboços interessantes da história bíblica.
Assim que terminei o esboço histórico, voltei-me ao povo e disse-lhes que eu entendia que nunca tinham tido reuniões religiosas naquela vizinhança. Aplicando esse fato, golpeei-os com toda a força com a espada do Espírito. A partir desse momento a seriedade do ambiente foi aumentando rapidamente. Daí a pouco pareceu cair sobre a congregação um choque instantâneo. Não posso descrever a sensação que tive, nem a que se manifestava na congregação, mas parecia que palavra, literalmente, cortava como espada. O poder do alto veio sobre eles numa torrente tal, que caíam dos bancos em todas as direções.
Dentro de um minuto em quase toda a congregação estavam, ou de joelhos, prostrados no chão, ou em alguma posição de humildade diante de Deus. Cada qual clamava ou gemia rogando a misericórdia divina para sua alma. Não davam mais atenção a mim ou à minha pregação. Procurei ganhar a sua atenção, mas não consegui. Observei o senhor de idade que me tinha convidado, sentado ainda, perto do meio do auditório. Olhava em redor, atônito, com os olhos quase saltando das órbitas. Apontando para ele, gritei com toda a força: "O senhor não pode orar?" Ele ajoelhou-se e berrou uma breve oração, o mais alto que pôde: mas ninguém lhe deu atenção.
Depois de ter olhado em volta de mim alguns momentos, ajoelhei-me, coloquei a mão sobre a cabeça de um jovem que estava ajoelhado aos meus pés e comecei a orar pela sua alma. Obtive sua atenção e, falando-lhe ao ouvido, preguei-lhe Jesus. Dentro de poucos momentos ele se entregou a Jesus pela fé, e então irrompeu em oração a favor dos que estavam ao seu redor. Voltei-me então a outro, do mesmo modo, e com o mesmo resultado; depois outro, e outro, até que não sei quantos se tinham entregado a Cristo e oravam fervorosamente pelos demais.
Depois de ter continuado assim até o cair da tarde, fui obrigado a entregar a reunião ao senhor de idade que me convidara, para atender um compromisso que tinha assumido em outro local. À tarde do dia seguinte fui chamado para voltar, pois não tinham conseguido dispersar a reunião. Tiveram que deixar a casa da escola para dar lugar às aulas, mas transferiram-se para uma residência próxima, onde encontrei uma porção de pessoas que ainda estavam demasiadamente ansiosas e oprimidas pela convicção de pecados. Por isso não podiam voltar para casa. Foram logo acalmadas pela Palavra de Deus, e creio que todas obtiveram a esperança em Cristo antes de ir para casa.
Na segunda visita, fiquei sabendo que o lugar era chamado de Sodoma, por causa da sua impiedade, e que o senhor de idade que me convidara era chamado de Ló pelo fato de ser a única pessoa do lugar que professava religião.
Dessa maneira o avivamento irrompeu nessa região. Faz muitos anos que não volto lá; mas em 1856, me parece, quando fazia um trabalho em Siracusa, Nova Iorque, fui apresentado a um ministro de Cristo do condado de São Lourenço, de nome Cross. Ele me disse: "Sr. Finney, o senhor não me conhece; mas lembra-se de ter pregado num lugar chamado Sodoma?" "Jamais me esquecerei", respondi. "Pois eu era jovem nessa ocasião", disse ele, "e me converti naquela reunião." Ele ainda vive; é pastor de uma das igrejas daquele condado, e é pai do superintendente do nosso departamento preparatório. Os que moram na região testificam dos resultados permanentes daquele abençoado avivamento. O que pude descrever em palavras dá apenas uma pálida idéia daquela extraordinária manifestação do poder do alto que acompanhou a pregação da Palavra.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Uma vida cheia do Espírito - Charles G. Finney
Postado por
DAVI E AMY
às
06:23
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário