UM BRADO DE RESIGNAÇÃO
"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"
Lucas 23.46
Foram as últimas palavras.
A fé é transmitida quando o que está morrendo declara sua fé a quem está vivo.
Quais seriam nossas últimas palavras?
Se nos informarmos sobre como Jesus morreu, nunca mais veremos a morte com os mesmos olhos.As trevas foram dissipadas para sempre, o sofrimento estava acabado e ele agora podia finalmente entre¬gar seu espírito nas mãos do Pai, para cuja agradável presença retornaria. Ele nos deixou de herança uma "boa morte".
O espírito é a parte mais nobre de nosso ser. Com a morte, nosso espírito partirá, seja para a luz do eterno dia, seja para as trevas da noite eterna. Jesus entregou seu espírito ao Pai, colocando-se em segurança sob os cuidados dele. E a boa notícia é que você e eu podemos morrer com a mesma segurança.
Para onde foi o espírito de Jesus quando ele morreu? Seu espírito — com todos os seus desejos, aspirações e afetos — foi para o Pai no Paraíso, para também encontrar o ladrão que chegaria no fim daquele mesmo dia. Paulo, em 1Tessalonicenses 5.23, suplica "Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam preservados irrepreensíveis", é nossa integridade que é preservada. A semelhança de Jesus, nosso espírito será levado em segurança para o Pai, e mais adiante nosso corpo será ressuscitado.
Se aprendemos com nosso Mestre, estaremos prontos quando chegar nossa hora. Ele morreu com confiança e foi recompensado."Temos essa esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar" (Hb 6.19,20). Deixe as tempestades retalharem as velas; deixe o assoalho ranger; deixe as rajadas de vento tentarem nos tirar do curso — os salvos chegarão seguros ao porto.
A cada dia, somos puxados um pouco mais para perto do porto por aquele que provou ser mais forte que a morte.
ELE MORREU NA PRESENÇA DO PAI
Aqui na terra, Jesus viveu na presença do Pai, mas agora ele estava voltando para a glória e para uma comunhão mais íntima com o Pai. Já vimos que, durante as primeiras três horas na cruz, ele sofreu nas mãos dos homens, e, durante as últimas três horas, sofreu nas mãos de Deus. E foi a essas mesmas mãos que ele confiou o seu espírito.
As mãos que lhe haviam trazido sofrimento, agora traziam alegria e alívio.Do início ao fim, o Filho só se preocupou com uma coisa: fazer a vontade do Pai e cumpri-la. Ele fez que os discípulos conhecessem o nome do Pai e tornou-se pecado por aqueles que acreditariam nele. Nada foi deixado por fazer.
Jesus morreu enquanto meditava nas Escrituras.
ELE MORREU SOB OS CUIDADOS DO PAI
Mesmo em seu último suspiro, Jesus ainda era Rei. Jesus foi crucificado exatamente no dia em que o cordeiro da Páscoa iria ser sacrificado (Jo 18.28). Às três horas da tarde, deu seu último brado, cumprindo seu papel de "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29).
Mateus não registra as últimas palavras de Jesus, mas simplesmente diz: "E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito" (Mt 27.50; arc). Ele tinha o espírito sob controle, até que o "entregou" voluntariamente ao Pai. Sua vida não lhe foi arrancada pelos sofrimentos da dor.
Como Rei, Jesus estava sempre no controle. Estava no controle quando adormeceu no barco, quando os soldados vieram prendê-lo. Pilatos pensava que estava no controle, mas Jesus assegurou que o governador estava enganado. "Não sabe que eu tenho autoridade para libertá-lo e para crucificá-lo?", perguntou Pilatos. Jesus respondeu: "Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima" (Jo 19.10,11). Somente aconteceria o que havia sido acertado entre o Pai e o Filho.
Sua morte não foi um incidente, mas um compromisso. Ele continuou sendo seu próprio Mestre, não sendo vencido pela morte.Jesus morreu de acordo com os propósitos da providência divina, não por causa dos caprichos de homens covardes. É exatamente dessa maneira que morreremos, você e eu.
Morreremos sob a zelosa mão dos cuidados da providência de Deus. Passaremos pela cortina de acordo com o relógio de Deus, não conforme o cronograma de uma sorte aleatória.
ELE MORREU NAS MÃOS DO PAI
"Pai, nas tuas mãos..."
Que magnífico significado está encerrado nessa expressão!
Pedro disse que Jesus foi crucificado por "homens perversos" (At 2.23). Mas chega o momento em que as mãos dos homens não podem fazer mais nada, e as mãos de Deus detêm o derradeiro poder de decisão. Quando Davi estava sendo perseguido pelos inimigos, ele percebeu que mesmo quando estamos nas mãos de homens perversos, estamos na verdade as mãos de Deus. "O meu futuro está nas tuas mãos; livra-me dos meus inimigos e daqueles que me perseguem" (Sl 31.15). Da mesma maneira, não estamos, em última análise, nas mãos de incidentes ou de enfermidades aparentemente aleatórias. Estamos nas mãos de Deus.
Nas mãos do Pai, foi elevado a uma posição de autoridade, e hoje espera que seus inimigos sejam postos como tablado para seus pés. Jesus ensina-nos que a morte é a porta pela qual somos admitidos na presença do Rei. Ele também nos lembra que é possível morrer ainda jovem e já ter cumprido a vontade de Deus. Quanto mais intimamente caminhamos com Deus, mais facilmente nos sentiremos seguros ao lhe confiar nosso espírito — o lugar em nós que é a morada do raciocínio, dos desejos, das preocupações e dos sentimentos. Sim, é óbvio que queremos ser enterrados, como prova de nossa crença na ressurreição. Independentemente daquilo que acontece com nosso corpo, o espírito pode voltar em segurança para casa. Haja o que houver, também seremos bem recebidos no santuário da presença do Pai.
Pragas e mortes flutuam ao meu redor,
Até que ele esteja satisfeito, eu não posso morrer;
Nem uma única seta pode me atingir
Até que o Deus de amor considere correto.
Se estamos nas mãos do Pai, também estamos nas mãos do Filho. No início de seu ministério, Jesus disse aos seus discípulos:
As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um (Jo 10.27-30).
As mãos do Filho e do Pai estão em harmonia. Tranqüiliza-nos saber que estamos nas mãos de ambos, pois a mão do Pai e a do Filho estão entrelaçadas.
O pecado havia sido derrotado, a morte mostrara-se impotente. Existe uma tribo na África em que, quando morre um cristão, eles não dizem "Ele partiu", mas sim: "Ele chegou". E é assim que funciona. Os que crêem chegam ao lar preparado por Jesus.
LIÇÕES PARA UMA TRANSFORMAÇÃO DE VIDA
A morte não é o fim da estrada, apenas uma curva.
Estamos avisados: "Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!" (Hb 10.31). As mãos que atualmente estão estendidas nos convidando a receber sua misericórdia são as mesmas que lançarão os impenitentes no poço da solidão, do desespero e do fastio do sofrimento eterno.
É errado pensar que somente os criminosos serão punidos por toda a eternidade. O inferno estará cheio de pessoas que pagam seus impostos, se recusam a cometer imoralidades e jamais foram acusadas de um crime. Para resumir, todo aquele que não se colocar sob a proteção da justiça de Cristo acabará sendo separado dele e enfrentará um tormento consciente. Eis o porquê de Jesus ter dito que o caminho para a vida eterna era estreito, e que "são poucos os que a encontram" (Mt 7.14).
Não se engane quanto a estar ou não nas protetoras mãos de Deus. Quando John Hus foi condenado pelo Concilio de Constança, em 1415, o bispo encerrou a cerimônia dizendo: "Nós agora confiamos sua alma ao Diabo". Mas Hus contestou: "Confio meu espírito em tuas mãos, Senhor Jesus Cristo. A ti rendo meu espírito, o qual tu salvaste". Hus, que era seguidor de Cristo e conhecia as boas-novas do Evangelho, sabia que nenhum homem pode nos confiar às mãos do Diabo, se nos rendemos às mãos de Deus. Hus foi queimado em uma estaca, vitorioso, sabendo que pertencia a Cristo e que Cristo pertencia a ele.
Talvez você esteja pensando: "Vou viver como quiser, e então, no último minuto, direi: 'Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito'". Não! Com raríssimas exceções, você morrerá exatamente da maneira que viveu. Se Deus não é seu Pai agora, certamente será impossível aceitá-lo como Pai conforme a morte for se aproximando. Estamos preparados para o céu quando abraçamos a Cristo como nosso Salvador, aceitando o que ele fez na cruz por nós. Somente os que crêem em Jesus podem confiar inteiramente seu espírito ao Pai.
Por fim, Deus não nos promete uma tranqüila passagem pela trilha da morte, mas uma chegada segura. No entanto, alguns realmente morrem pacificamente em um quarto de hospital, em casa ou cercados por amigos. Multidões de pessoas, porém, morrem violentamente. Outros perdem-se no oceano ou morrem anonimamente em selvas distantes.
A promessa é que, independentemente de quão turbulenta for a morte, chegaremos em segurança ao nosso destino.
Temos a convicção de que o espírito sobrevive ao corpo, e, graças à ressurreição, nosso corpo decadente ressurgirá em novidade de vida. No céu, seremos as mesmas pessoas que somos na terra. E óbvio que o pecado será removido, mas levaremos nossas lembranças para a próxima vida. Também estaremos lúcidos acerca de nossos vínculos sentimentais, amigos e parentes que tínhamos aqui.
Próximos da morte, a cruz nos será mais preciosa do que nunca. Pois se aceitarmos o Cristo que lá ficou pendurado por nós, jamais chegaremos realmente a morrer. Pois ele morreu não apenas para levar nossos pecados embora, mas para provar que a morte não domina sobre os que depositaram sua fé sobre o único que a subjugou.
Visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte (Hb 2.14,15).
Muitos santos morreram com as últimas palavras de Jesus nos lábios. Quando as pedras começaram a ser lançadas, Estêvão, o primeiro mártir cristão, orou: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 7.59).Quando D. L. Moody morreu, ele disse: 'A terra recua; os céus se abrem para mim [...] Se a morte é isto, é algo agradável".
"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito."
EPÍLOGO
"É necessário uma igreja crucificada para apresentar um Cristo crucificado perante os olhos do mundo", escreveu W. E. Orchard. Nietzche, o famoso ateu, assim se referia aos cristãos: "Eu poderia acreditar em seu Salvador, se eles parecessem mais salvos!". A realidade pura e simples é que a mensagem do Evangelho deve ser comprovada diante do mundo, pela vida dos seguidores de Cristo. Não traz qualquer benefício apregoar que todos nós precisamos pregar a mensagem de Cristo. A menos que a vivamos, o mundo não terá nenhuma razão para acreditar.
O que Jesus queria dizer quando afirmou que precisávamos carregar nossa cruz? Ele certamente não estava se referindo às enfermidades comuns ou aos problemas normalmente associados à vida em si. Os não-salvos também passam por todas essas experiências. Acredito que a cruz que recebemos se refere aos problemas que não teríamos se não fôssemos cristãos. Ou, de forma mais positiva, carregar a cruz significa suportar nos ombros as dificuldades que temos por ser seguidores de Jesus.
Meu apelo a você é simplesmente este: visto que Jesus morreu de tal forma por você, não seria lógico que escolhêssemos viver nossa vida somente para sua glória, independentemente do custo envolvido? Considerando que a cruz foi para ele um instrumento de sofrimento, não deveria também sê-lo para nós?
Jesus não salvou o mundo por meio de seus milagres. Milagres jamais serão permanentes. Jesus, na verdade, transformou o mundo pelo sofrimento. Sendo assim, devemos seguir a Cristo em suas fraquezas, para que possamos ser fortes.
Visto que Cristo morreu pelo que acreditava, não deveríamos seguir seus passos?
A cruz representa a grande "mudança de valores". Ela é testemunha perene do fato de que o que o homem odeia, Deus ama, e o que Deus ama, o homem odeia. A disposição de nos identificarmos com Cristo em nosso lar, no trabalho e em locais afins é sinal indispensável em uma vida resgatada. Ao nos ver, o mundo deveria ficar surpreso, desconcertado, sem ter como não reparar. Assim como Jesus era tanto amado quanto odiado, tanto obedecido quanto desprezado, devemos esperar o mesmo. "Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: Nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão à de vocês" (Jo 15.20).
Se o representarmos bem, seguiremos seus passos.
Se formos tão egoístas quanto o mundo — se insistirmos furiosamente em nossos direitos, fazendo escândalo a cada insulto que recebemos — reais ou imaginários —, não seremos diferentes da cultura em que estamos inseridos.
Lembre-se de que, no fim, o que o mundo realmente precisa é ver Jesus.
Quem Jesus Cristo é para nós?
A criança abortada e o adolescente assustado que não sabe o que fazer.
A mãe solteira que precisa de alguém que proporcione a seu filho um vínculo masculino.
A criança mestiça que é ridicularizada.
O homossexual que, de tão acossado pela culpa, chega a pensar em suicídio.
O interno de um presídio.
A população de nossos bairros pobres.
Hoje, essas pessoas são Jesus Cristo para nós. Nos dias de hoje, todos aqueles a quem criticamos sem pensar duas vezes são Cristo para nós. Precisamos assumir nossa posição e aceitar o papel de servos. Devemos estar dispostos a morrer para que os outros possam viver.
De fato, se temos a expectativa de que as pessoas creiam em nosso Salvador, teremos de parecer "mais salvos". E para parecer mais salvos, temos de seguir nosso Redentor até a cruz. Deixemos nossas armas de lado e abracemos a cruz, não apenas como meio de salvação, mas como estilo de vida. Somente então poderemos trazer esperança ao nosso mundo ferido.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Os brados da cruz - Erwin Lutzer
Postado por
DAVI E AMY
às
05:17
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