Os brados vindos da cruz ainda são ouvidos em nossos dias. Clamam ao coração do homem e querem conquistá-lo. Permita que as últimas palavras de Jesus toquem, surpreendam e transformem sua vida. Quando melhor compreendermos o que ela deve significar para cada um de nós.
Quem tem ouvidos ouça!
Erwin W. Lutzer é pastor-titular da Moody Church, cm Chicago, EUA.
PREFÁCIO
Há uma história sobre um peregrino que seguia seu caminho rumo à Terra Prometida. Ele levava a cruz de seu mestre, fardo que carregava com alegria. No entanto, logo notou que, quanto mais andava, mais pesada a cruz se tornava. Sentindo-se fatigado, sentou-se para descansar e notou que havia um lenhador próximo a ele.
"Meu bom amigo", disse o peregrino, "eu poderia usar seu machado para encurtar minha cruz?". E o lenhador permitiu.
O peregrino seguiu em sua jornada, progredindo mais rapidamente. A cruz estava mais curta, e seu fardo, mais leve. Ele logo avistou a Terra Prometida. Entretanto, ao se aproximar, percebeu que havia um profundo abismo separando-o das glórias existentes do outro lado. Então decidiu usar a cruz para tentar transpor o abismo.
Embora tentasse com unhas e dentes colocar a cruz por sobre o profundo fosso, faltava-lhe o exato comprimento que fora cortado. Naquele momento, o peregrino acordou. Era tudo um sonho. E então, com os olhos cheios de lágrimas, abraçou a cruz junto ao peito. A cruz estava tão pesada quanto antes, mas agora ele a suportava com a maior alegria. E a suportaria por todo o caminho até a Terra Prometida.
E claro que não entraremos no céu por carregar uma pesada cruz, mas por confiar que somente Cristo é capaz de nos dar a salvação. Dessa forma, ao sermos redimidos, somos chamados para carregar nossa cruz, a fim de entrar na abundância do reino celestial. Bem-aventurados os que carregam todo o fardo que lhes pertence.
A parte da cruz que sempre recusamos carregar é justamente a que nos torna inúteis para o Reino de Deus. Quanto mais leve nossa cruz, mais fraco será nosso testemunho.
Devemos aprender que para ele a cruz significou algo completamente diferente dos conceitos sentimentais que muitas vezes acompanham o símbolo usado em volta do pescoço. Estar ao pé da cruz é testemunhar o propósito pelo qual Deus criou o mundo.
INTRODUÇÃO
UMA JORNADA NO INTERIOR DO CORAÇÃO DE JESUS
Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o
manto e vestiram-lhe suas próprias roupas.
Então o levaram para crucificá-lo.
Mateus 27.31
"Você estava lá quando crucificaram o meu Senhor?"
Não há dúvida de que eu não estava lá quando crucificaram meu Senhor! Nasci séculos após a morte de Jesus. Por cerca de dois mil anos, perdi o acontecimento. Eu também não estava lá quando o colocaram no túmulo nem quando "ressuscitou dentre os mortos".
Todavia, à medida que crescia na compreensão de minha fé, dei-me conta de que eu estava lá. Na verdade, se não estivesse lá, não teria hoje salvação.
Pois foi no Calvário que Jesus se tornou judicialmente culpado por nossos pecados. Graças a seu propósito eterno, posso dizer que ele morreu por mim e, ao ter perdoado meus pecados, "se assentou à direita da Majestade nas alturas" (Hb 1.3). Isso significa que aqueles que não estavam lá morrerão por seus pecados.
A cruz é bastante mal-interpretada nos dias de hoje. Isso pode ser comprovado pelo fato de ser quase impossível achar alguém que diga algo negativo a respeito dela. A cruz é usada como pingente por atletas, adeptos do Movimento Nova Era e astros de rock. Esse indescritível instrumento de morte e crueldade é agora símbolo de união, tolerância e espiritualidade de todos os gêneros. O "escândalo da cruz", como diz Paulo, há muito desapareceu, quando a mensagem foi reinterpretada para se adequar à mente moderna. Muitos dos que usam a cruz no pescoço ficariam horrorizadas se compreendessem seu verdadeiro significado.
Quanto mais a massa compreende o que Jesus fez e por quê, mais a cruz é desprezada. Não apenas o fato de Jesus ter morrido por nós é importante, mas também a forma que ele morreu. A cruz não era apenas uma forma cruel de assassinato: ela humilhava as vítimas. O procedimento, como todas as torturas, acabava com a vítima nua, sem direitos, sem respeito e sem refúgio algum.Logo, a cruz não prova apenas o amor generoso de Deus para com os pecadores, mas também a intensidade de nosso pecado e de nossa rebelião contra ele. Para nós, amar o pecado seria como amar a faca usada para matar uma criança.
A cruz, corretamente compreendida, não exalta ninguém que não tenha sido primeiramente humilhado. A cruz expõe a futilidade de nosso sentimento de superioridade moral e faz-nos recordar que somos pecadores, incapazes de efetuar nossa reconciliação com Deus. Perante a cruz, podemos apenas ficar com a cabeça baixa e o espírito abatido.
A menos que nos vejamos merecedores do veredicto que Pilatos deu a Jesus e a menos que nos vejamos dignos do inferno, jamais entenderemos a cruz.Alguém já disse que, para nós, é difícil abraçar a cruz quando a satisfação pessoal é soberana.
A mensagem que transformou o mundo do primeiro século era que os seres humanos são culpados, irremediavelmente culpados por pecados que não podem ser compensados. A cruz destrói todo o orgulho e acaba com o valor fundamental do esforço próprio. A cruz é a prova do grande amor de Deus, mas também revela monstruosidade. Outros interpretam erroneamente a cruz, considerando-a uma bandeira a ser defendida, e não um meio de execução. Freqüentemente obscurecemos a mensagem que o mundo precisa ouvir com clareza e firmeza. Será que nos esquecemos — nós, cristãos comprometidos — de que o poder de Deus é mais claramente visto na mensagem da cruz que em qualquer projeto político ou social que possamos inventar?A busca do antídoto para nossas míseras desgraças não seria o sintoma de que perdemos a confiança no poder da cruz para a salvação do ser humano? Será que nos agarramos à cruz com a verdadeira convicção de que ela não é apenas parte de nossa mensagem, compreendendo corretamente seu todo?
A igreja só pode viver e respirar na cruz. Sem isso, não há vida ou razão para existir. Oportunamente proclamada, ela é "o poder de Deus para a salvação".
Outros pensam na cruz com profundo sentimentalismo, mas sem espírito de arrependimento. O primeiro mandamento diz: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças" (Mc 12.30). Essas palavras condenam a todos nós, pois por natureza nos mantemos preocupados com nossos interesses. Se somente pensarmos em Deus como uma extensão de nós mesmos, concluiremos que nosso pecado não é muito grave. Sem o inferno, a cruz perde todo o significado.
O sofrimento de Jesus foi terrível, pela simples razão de que nosso pecado é terrível. E devemos ter sempre em mente que o sofrimento de Jesus não foi somente físico — o pior não foram as lacerações, a coroa de espinhos e os pregos. O sofrimento espiritual que ele suportou quando a associação com o Pai foi interrompida por três horas na cruz foi o supremo sofrimento, agonia que você e eu jamais experimentaremos.
A grandeza da santidade do nosso Salvador em contato com nossa iniqüidade é o que importa no Calvário.
A VISÃO DE DEUS SOBRE A CRUZ
A cruz estava acima de qualquer coisa para Deus Pai. Paulo escreveu: "Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. [...] no presente [...], a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus" (Rm 3.25,26).
A obediência de Cristo como o Cordeiro de Deus foi preciosa para o Pai. A disposição demonstrada pelo Filho, sofrendo de acordo com o plano divino, foi um sacrifício de aroma agradável a Deus.
Deus agradou-se do sacrifício de seu Filho. "Contudo, foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer, e, embora o Senhor tenha feito da vida dele uma oferta pela culpa, ele verá sua prole e prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em sua mão" (Is 53.10).
Se fizermos a pergunta "Quem matou Jesus?", nossa primeira resposta não deverá ser "Os judeus", ou "Pilatos", e sim "Deus". Deus esmagou seu Filho. Pedro disse que ele foi entregue nas mãos dos judeus "por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus" (At 2.23). Para deixar claro, de acordo com os planos do Pai, Jesus se crucificou. Aqueles pecadores realizaram o propósito de Deus. Pedro, falando sobre todos os que conspiraram para crucificar Jesus, disse: "Fizeram o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse" (At 4.28).
Por que o Pai faria tal coisa? John Piper responde: "Ele fez isso para solucionar a discordância entre seu amor por sua glória e seu amor pelos pecadores". Deus não podia simplesmente deixar que o passado ficasse para trás. Assim, antes do início dos tempos, Deus Pai e Deus Filho concordaram em um plano pelo qual a iniqüidade de todos nós seria colocada sobre Jesus. Ele toleraria nosso castigo a fim de que pudéssemos ser absolvidos pelo Pai. O pecado seria apresentado horrível como é, e Deus seria apresentado como o Deus amoroso que é. Na cruz, a santidade inexorável colidiu com o amor, para a mútua satisfação de cada característica.
Martinho Lutero debatia-se freqüentemente contra a incerteza e o Diabo. Ele estava ciente de que somos facilmente iludidos por causa de uma história sobre são Martinho, a figura histórica que havia inspirado seu nome. A história conta que são Martinho teve uma visão de Cristo. Mas quando olhou para suas mãos, a fim de certificar-se de que lá estavam as marcas dos pregos, os furos desapareceram. Então, ele jamais soube se havia encontrado Cristo ou o Diabo. Existem muitos "cristos" nos dias de hoje, mas eles não possuem as marcas dos pregos.
No entanto, o que milhões não possuem é um Deus com feridas, um Deus que veio ao mundo sofrer por nossa causa, para que pudéssemos ser reconciliados com o Todo-Poderoso. Esse ato fundamental de redenção é tão importante que transformou o imutável. Aliás, o céu está diferente por causa "do Cordeiro que foi morto". O sangue se foi, mas a cicatriz permanece como lembrança de nosso pecado e de sua graça.
Ninguém experimentará o favor eterno de Deus se se desviar da cruz. Quando nos "agarramos à velha e áspera cruz", como nos incentiva o conhecido hino, não o fazemos por mero sentimentalismo. A cruz é o cerne de nossa mensagem e o coração de nosso poder para combater as trevas invasoras.
CLAMORES DA CRUZ
As últimas palavras são sempre importantes. Mas certamente não existem últimas palavras tão importantes quanto as proferidas por Cristo na cruz. Nelas, vemos seu coração e seu amor pelo povo que estava sendo salvo por ele. Nesses brados, vemos o lado humano de Jesus. Isaías o descreveu: "Sua aparência estava tão desfigurada, que ele se tornou irreconhecível como homem; não parecia um ser humano" (Is 52.14). Mesmo em agonia, Jesus ainda era Rei. Mas ele põe de ponta-cabeça nossa visão de majestade.
Leia atentamente as palavras de Brooke Foss Wescott:
A soberania demonstrada por Cristo na cruz é uma nova soberania. Destruiu para sempre a fórmula da lei do mais forte. Humilhou a petulância do falso heroísmo. Envolveu com uma dignidade que não perece a integridade do sacrifício. Deixou claro para o coração puro que a prerrogativa da autoridade é servir de forma mais abrangente. O Rei divino adquiriu domínio eterno ao morrer.
No sofrimento da cruz, não encontramos apenas o perdão, mas também a cura para nossas mais profundas mágoas. Assim como na cruz, ocorre uma permuta pelos nossos pecados — nossos pecados são creditados a Cristo, e sua justiça é creditada a nós —, nossos fardos emocionais também são transferidos para os ombros dele.
Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos castigado por Deus, por Deus atingido e afligido. Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados (Is 53.4,5).
Ele tomou sobre si nossas enfermidades.
A cruz foi o maior ato de Deus para nos alcançar, e é aqui que nos identificamos mais intimamente com Cristo. Conforme aprenderemos, Cristo foi abandonado para que fôssemos acolhidos. Ele experimentou o inferno para que pudéssemos experimentar o céu.
Ele morreu para que também fôssemos fisicamente curados? Sim, ele nos redimiu por inteiro — corpo, alma e espírito. No entanto, seria um erro presumir que podemos ser curados a qualquer momento e que temos o direito de "reivindicar a nossa cura". Os que querem tudo neste mundo enganam multidões que caem vítimas da teologia da prosperidade. Nesta vida, recebemos o perdão pelos nossos pecados e o Espírito Santo como um adiantamento da glória futura. Mas o céu ainda não é aqui. A cura física, embora tenha sido comprada, ainda deve aguardar.
A cruz lembra que nossa auto-condenação deve ter um fim. Já não precisamos ficar lembrando o passado. Não devemos pensar que Deus nos vê como nós nos vemos. Receber o perdão de Deus e estendê-los aos outros é tanto privilégio quanto responsabilidade.
Ele foi preso por mim, ferido por mim, rejeitado por mim e surgiu em novidade de vida por mim. Dietrich Bonhoeffer estava certo quando disse que a culpa é um ídolo que algumas pessoas se recusam a abandonar. Devemos aceitar com ousadia o que Deus nos oferece, em vez de lhe dar às costas. Alguns acham que estão fazendo um favor a Deus quando se recusam a aceitar seu perdão, raciocinando que ele está tão bravo que prefere não os ver de forma alguma. Pessoas assim insultam a Deus, pois vivem como se a morte de Cristo não fosse o bastante para seus pecados. Não tenha dúvida. Ele é capaz de salvar todos os que optarem por crer. Suas feridas foram a prova de seu amor.
O computador que estou usando não reconhece a palavra "quebrantamento". Infelizmente, muitos de nós também não reconhecem essa palavra. Sabemos o que é estar quebrado, mas não experimentamos o quebrantamento, palavra que nos lembra que na cruz se acaba toda auto-exaltação, e somos apresentados ao mistério da vontade providencial de Deus para nós. Na cruz, chegamos ao fim da busca egoísta e rejeitamos para sempre a noção de que somos dignos de cooperar com Deus em nossa salvação.
Os outros deuses eram fortes, mas tu eras fraco, Eles cavalgavam, mas tu cambaleaste até teu trono Mas com nossas feridas, somente as feridas de Deus podem falar, E nenhum Deus possui feridas, senão somente tu.
Um Deus com feridas! Jesus não se calou na cruz. Se voltarmos nossa atenção para os brados dele, encontramo-nos em solo sagrado. Os brados de Jesus revelam os mais profundos anseios de seu coração. Aqui, vemos o último ato de sofrimento altruísta. Junte-se a mim em uma jornada que nos fará excla¬mar: "Veja como ele nos amava!"
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Os brados da cruz - Erwin Lutzer
Postado por
DAVI E AMY
às
10:18
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