segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os brados da cruz - Erwin Lutzer

UM BRADO DE COMPAIXÃO

"Mulher, eis aí o teu filho [...] Eis aí tua mãe..."
João 19.26,27; arc


Se há um momento no qual se espera que o homem pense somente em si, é a hora da morte.A consciência de que a eternidade está à espera liberta a mente de quase todos os pensamentos de ansiedade.

Jesus, suspenso na cruz, pensou nos outros. Antes que a presença de Deus se afastasse e as trevas se espalhassem sobre a terra, Jesus tomou providências com relação a sua mãe. Ele, até o fim, continuou sendo um dedicado primogênito. Sendo o filho mais velho na casa de uma viúva, tinha a obrigação de cuidar dela.

Imediatamente após os soldados lançarem a sorte pela túnica de Jesus, lemos: "Perto da cruz de Jesus [estava] sua mãe" (Jo 19.25). A seguir vêm as palavras de Jesus a Maria e João.

"Por que naquele momento? Ela havia estado lá o tempo todo, assistindo e chorando. Por que ele não a havia reconhecido ou falado com ela? Teria sido por causa da túnica sem costura? Creio que sim. Suas vestes externas não tinham qualquer significado [...] Mas quando eles tocaram na túnica, tocaram algo muito próximo de seu coração — a veste que Maria havia feito para ele".

Já vimos que João voltou para estar ao pé da cruz e assistir ao sofrimento e à morte de seu Mestre. Embora estivesse sentindo uma dor indescritível, Jesus passou a conversar com ele e com sua mãe, que se encontrava próxima dali com mais três mulheres. Ele já não poderia mais cuidar dela, pois a natureza de sua relação seria alterada para sempre. Escutemos atentamente cada palavra.

"Aí está o seu filho" (Jo 19.26).

Apesar de ele ser filho de Maria, não estava se referindo a si mesmo. Nessa hora ele usou a palavra "filho" referindo-se a João, "o discípulo a quem Jesus amava" (Jo 13.23). Ela teria de "adotar" João como filho. João iria preencher da melhor forma possível o vazio e a dor provocados pela morte de Jesus. Maria estava perdendo um filho, mas ganhava outro.

Ele mal havia conseguido expressar essas palavras, quando outro gemido deixou seus lábios ressecados. Ele esforçou-se para ser ouvido e tentava olhar na direção de João.

"Aí está a sua mãe" (Jo 19.27).

João recebeu a missão de cuidar de Maria, como se ela fosse sua mãe.

O AMOR DE MÃE

Por alguns instantes, coloquemo-nos no lugar de Maria, que foi escolhida para dar à luz ao Filho de Deus. Após a visita do anjo, ficou tão entusiasmada quanto temerosa. Sentia-se honrada, mas envergonhada. Expressando fidelidade e obediência, respondeu ao anjo Gabriel: "Que aconteça comigo conforme a tua palavra" (Lc 1.38). Após o nascimento de Jesus, ela e José levaram o bebê ao Templo. Lá, Simeão, o ancião, profetizou que uma espada traspassaria a alma dessa mulher (Lc 2.35).

Como Simeão estava certo! Se fosse para ter um filho, ela deveria ter também uma espada. Grandes privilégios trazem grandes aflições.

A primeira vez em que a espada foi cravada em seu coração foi quando bebês inocentes foram massacrados nas cercanias de Belém, devido ao medo que Herodes tinha do Messias (Mt 2.16-18). A pequena família escapou para o Egito, mas ela certamente sabia que fora por causa de seu filho que os soldados entraram nas casas e mataram os bebês na frente das famílias. A região inteira ficou em prantos. Maria e seu filho foram a causa de tudo isso.

A espada penetrou novamente quando ela e sua família ouviram os boatos de que seu filho havia sido concebido de forma ignominiosa. Ela ouviu a zombaria, as ofensas e as ameaças. Soube que tentaram empurrar seu filho de um penhasco em Nazaré. Soube também que ele era perseguido como um camundongo por um falcão. E como sabia que ele era inocente — perfeito em todos os sentidos —, a injustiça disso tudo pesava-lhe na alma.

Por fim, na cruz, a espada partiu o coração de Maria, penetrando-o profundamente. Quando o soldado, por fim, perfurou o lado de seu filho, foi como se uma espada tivesse retalhado seu coração de mãe. Ela, que o havia amado desde o nascimento, passava a amá-lo ainda mais na morte.

"Nunca um nascimento humano trouxe tanta alegria. Jamais uma morte desumana trouxe tanta tristeza".

Ela sabia que ele tinha poder para descer da cruz e sabia das legiões de anjos que estavam à disposição. Mas quando ele disse "Aí está o seu filho" e meneou a cabeça na direção de João, ela entendeu que ele a preparava para a morte. Os laços terrenos estavam desfeitos, e um novo relacionamento celestial estava para começar. Ele não mais seria seu filho, mas seu Salvador.

Ela ficou ao seu lado, pois, embora fosse ridicularizado e tratado como criminoso, ela o conhecia melhor. Ela ficou diante da cruz. Não desmaiou, não se curvou, não saiu correndo. Ficou e assistiu a tudo. Como mãe, restava-lhe apenas ficar ao seu lado, suportando uma dor intolerável. Sim, a espada foi cravada no alvo mais sensível.Apesar de não conseguir entender, ela podia amar.Ela também precisava do perdão que seu filho estava comprando naquele momento.

O EXEMPLO DO FILHO

Jesus estava plenamente consciente da dor que havia causado à sua querida mãe. Ele a chamou "mulher", da mesma forma que fizera nas bodas, em Caná. Não queria desrespeitá-la, mas ela precisava lembrar que ele era divino, e ela, uma mãe deste mundo. O próprio Jesus jamais usou essa palavra, mãe, talvez para nos lembrar que ela fora apenas o veículo humano pelo qual ele entrou no mundo.

Por que Jesus não confiou sua mãe aos seus meio-irmãos — os filhos que Maria dera a José após o miraculoso nascimento virginal? (Eles são mencionados em Mt 13.55.) Por um lado, eles não estavam em Jerusalém, mas na região da Galiléia. Por outro lado, sabemos que, quando cresceram, não conseguiam aceitar que o irmão mais velho fosse o Messias. Quando seu ministério já havia começado, lemos: "Nem os seus irmãos criam nele" (Jo 7.5).Portanto, naquele momento, ele a confiou a um novo "filho", João.

RESPONSABILIDADE DE DISCÍPULO

Quando Jesus foi preso, vemos que "todos os discípulos o abandonaram e fugiram" (Mt 26.56). Naquela hora, porém, eles fugiram porque estavam escandalizados, tal como ele previra (Mt 26.31; arc).Para falar claramen¬te, eles desertaram porque sentiam vergonha dele.

Tenho, freqüentemente, refletido sobre o que Satanás disse a Deus: "Um homem dará tudo o que tem por sua vida" (Jó 2.4). Muitos têm convicções profundas, mas não o suficiente para sofrer por causa delas. Não raro, pouca coisa já é o bastante para que nossa fé seja abalada — foi o que Pedro descobriu.

Mas a falha dos discípulos também foi uma questão de providência divina. Isaías, sobre o Messias, predisse o seguinte: "Sozinho pisei uvas no lagar" (Is 63.3). Quando voltou, João aprendeu que quando alguém se aproxima da cruz recebe nova responsabilidade.

O cristão carnal deve retornar à cruz para receber sua incumbência. Ninguém pode se achegar à cruz sem vê-la como lugar de devoção abnegada. Viemos à cruz por desistir de nossos planos e ambições e para aceitar o manto que nos é dado por aquele que lá foi suspenso por nossa culpa.

Jesus não repreendeu João por este haver partido. Em vez disso, concedeu-lhe gloriosa honra quando retornou. Três dias mais tarde, Pedro e João foram os primeiros a correr para o sepulcro. Pedro entrou e reparou na disposição organizada da mortalha. Então João entrou, e lemos que "ele viu e creu" (Jo 20.8). Isto é, soube que Jesus havia ressurgido dentre os mortos.

O que os discípulos fizeram com essa animadora notícia? Voltaram para casa (Jo 20.10). Isso significa que João correu para casa a fim de contar a Maria que seu filho havia ressuscitado. Jesus não negligenciou as obrigações para com sua família na terra.

VIVENDO PERTO DA CRUZ

Se estivéssemos lá, a que distância ficaríamos da cruz? Perto ou a uma distância confortável? Será que a turba nos teria intimidado, ou teríamos, de bom grado, deixado que os furiosos agitadores soubessem que éramos seguidores do homem que estava suspenso na cruz do meio? Teríamos ficado por perto, ainda que a cruz nos custasse o mesmo que custou a Cristo?

Na cruz, assim como João, somos convidados a assumir o lugar de Cristo no mundo. Algum tempo antes disso, ele ensinou aos seus discípulos: "Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo" (Lc 14.26,27; grifo do autor).

Você teria tomado conta de Maria se Jesus lhe tivesse pedido? "Mas é claro!", você dirá. Mas como podemos ter certeza? Temos essa mesma oportunidade todos os dias.Somos irmãos, irmãs e mães de Jesus! As viúvas necessitam que o filho de outra pessoa tome conta delas. Mães solteiras precisam de pais substitutos para seus filhos. O doente e o incapacitado precisam ser visitados e cuidados com o mesmo espírito que o próprio Cristo os assistiria. "Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram" (Mt 25.40). Nossos pais precisam do mesmo cuidado carinhoso que proporcionaríamos à Maria. Somos seu corpo, suas mãos, seus pés.

Imagino Jesus dizendo: "Mulher, aí estão seus filhos", e depois: "Crianças, aí está sua mãe". Os gemidos de Cristo na cruz devem preencher os ouvidos de todos os que ministram a Palavra nesta época de lares desfeitos. E muitos já descobriram que os laços espirituais são ainda mais fortes que os laços de sangue na formação de relacionamentos. A compaixão exercida com o sacrifício do próprio ser é, acima de tudo, sinal inconfundível da presença de Cristo. Acatemos o pedido de Jesus quando ele nos disser "Tome meu lugar até que eu volte".

A cruz esmaga toda a auto-exaltação. Lá estando, com o coração aberto, temos apenas uma pergunta: "Como conseguirei ser suas mãos e seus pés neste mundo?".

Que contraste se podia ver do lado de fora de Jerusalém naquele dia! Os que amavam a Jesus estavam absolutamente desesperados. Os que o odiavam alegravam-se com a vingança. Mas o inferno também estava lá, com sua crueldade, sua indiferença e suas trevas.

Assim como os soldados, existem os que ainda apostam a vida à sombra da cruz. Conhecem Jesus — alguns aprenderam sobre ele no próprio lar ou na igreja. Mas não é a proximidade da cruz que nos tornam fiéis. Em alguns momentos, foram exatamente as pessoas mais próximas de Cristo que o rejeitaram de maneira mais determinada.

Tomemos nosso lugar ao lado dos que se curvam humildemente e aceitam a responsabilidade que a cruz coloca sobre cada um de nós. "Quanto a mim, que eu jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio da qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo" (Gl 6.14).

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