quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os brados da cruz - Erwin Lutzer

UM BRADO DE SOFRIMENTO

"Tenho sede." João 19.28

Por volta de 1968, quando estudava em Israel, eu e alguns amigos subimos até o topo da fortaleza de Massada, sob um calor de quase 100 graus. Imagine a trilha que o antigo historiador Josefo descreveu como um "rastro de cobra", seguindo seu tortuoso caminho para cima, pela face de uma montanha muito alta. Subestimamos a quantidade de água que precisaríamos para a escalada de três horas. Nenhum de nós jamais havia experimentado, nem tornamos a experimentar depois daquilo, uma sede tão debilitante, selvagem e abrasadora.Mas essa sede não pode ser comparada com a sede da crucificação, que é um longo processo de desidratação.Então, durante seis horas, ele ficou pendurado na cruz sem ter acesso a qualquer líquido.Os que realmente já sentiram sede dizem que ela pode queimar como o fogo na boca.

Como é possível que o Criador dos rios e dos oceanos tivesse os lábios ressecados. Como é possível que a Onipotência estivesse sedenta? Como é possível que aquele que acalmou o mar com sua palavra ansiasse por algumas gotas de refrigério?Ele recusou-se a transformar pedras em pão quando estava faminto no deserto. Agora, na cruz, recusava-se a criar água para matar a sede. Ele já nos havia ensinado como viver. Agora ensina-nos como morrer.

Esta simples frase, "Tenho sede", possui uma infinidade de significados. Ele fala a todos os que têm sede, a todos os que têm desejos não realizados. As gotas que ele ansiava tornaram-se duchas de bênçãos para nós.

A HUMANIDADE DE JESUS

A sede prova que ele era realmente um homem. Há algo de censurável em Jesus tornar-se completamente humano, a ponto de ficar sedento e cansado. Ainda assim, a Bíblia nos assegura que ele cresceu, que foi criança. Ele comeu, dormiu, bebeu e ficou cansado. Ele se encolerizou com a injustiça e, quando ficou cheio de compaixão, chorou.Como Deus, ele podia dizer: "Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!" (Jo 8.58). Como homem, podia dizer: "Tenho sede" (Jo 19.28). Deus Pai não sente sede. Os anjos não sentem sede. Aquela era a sede de um homem que estava morrendo.

Não podemos deixar de pensar que sua sede não se resumia ao desejo físico de beber água. A provação a que foi submetida sua alma afetou seu corpo à medida que interagiam durante o sofrimento. A sede de Jesus expressava seu anseio de tornar a ter comunhão com o Pai, após três horas de terrível separação. A sede que Jesus tinha da presença de Deus deve ter sido maior que a sede por água.

Ele teve sede para que fôssemos salvos da sede eterna.

A SUBMISSÃO DE JESUS

Por que Jesus não criou uma pequena corrente de água no interior de sua boca sedenta? Por que se incomodou em dizer "Tenho sede", quando lhe faltavam poucos minutos para morrer? A questão é que ainda havia uma profecia a ser cumprida. Vários séculos antes, Davi havia escrito: "Puseram fel na minha comida e para matar-me a sede deram-me vinagre" (Sl 69.21). Ainda não lhe haviam oferecido vinagre. Então Jesus, ciente de que esse detalhe não poderia ser ignorado, clamou, para que isso acontecesse: "Mais tarde, sabendo então que tudo estava consumado, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: 'Tenho sede'" (Jo 19.28).Um soldado atendeu ao chamado de Jesus, cumprindo a profecia.

Jesus talvez tenha sido crucificado a apenas meio metro do chão. Logo, teria sido fácil para um soldado colocar uma esponja na ponta de uma vara e segurá-la diante de sua boca. Esse vinagre era o vinho barato dos soldados, usado apenas para molhar os lábios, mas serviu para cumprir a profecia.

Ele não bradou "Tenho sede" para que sua sede devastadora pudesse ser saciada. Ele o fez para que as Escrituras pudessem se cumprir. Será que teríamos dado água a Jesus se estivésse-mos lá? Sim, imagino que sim! Mas ele ensinou que temos este privilégio até mesmo hoje:

Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber [...] Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram (Mt 25.34,35,40).

Se dermos um copo de água fresca a um membro da família de Jesus, o estaremos fazendo para o próprio Jesus!

A sufocante sede de Jesus diz-nos quanto ele era submisso à Palavra de Deus. Devemos perguntar-nos se estamos preparados para ser tão submissos a ele como ele foi ao Pai. Estamos dispostos a sofrer necessidades não satisfeitas, até mesmo sede sufocante? O conforto do qual desfrutamos é mais valioso para nós que a vontade do Pai? Nossa sede por Deus é tão grande quanto nossa sede física sob sol abrasador?

Todos nós já fomos privados de algo essencial. No entanto, nada pode se comparar à privação de água durante a crucificação. Já reparamos que não é preciso muito para rompemos nossa comunhão com Deus. Uma ligação desagradável, a necessidade de ignorar a refeição, dor física — tudo isso nos faz perguntar se Deus não nos abandonou. Murmuramos quando não dispomos de água, muito embora, mereçamos o cálice da ira de Deus.

Jesus era submisso à vontade do Pai, como está registrado na Palavra de Deus. Não fazia diferença se isso lhe era agradável ou se trazia tormentos. A glória do Pai ofuscava todo sofrimento, dor ou injustiça. Paulo escreveu: "Cada um de nós deve agradar ao seu próximo para o bem dele, a fim de edificá-lo. Pois também Cristo não agradou a si próprio, mas, como está escrito: 'Os insultos daqueles que te insultam caíram sobre mim'" (Rm 15.2,3). Não é nossa vontade que importa, mas a de Deus.

A COMPAIXÃO DE JESUS

Jesus sentiu a dor da rejeição, a dor da injustiça e, também, a dor da sede.

Não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade (Hb 4.15,16).

Cristo entrou em nosso mundo e participou de nosso sofrimento. Ele caminhou em nosso planeta, comeu nossa comida, bebeu nossa água e sentiu nossa dor. O que quer que estejamos passando hoje, podemos estar certos de que Jesus passou por tudo isso e ainda mais. Deus entrou em nosso sofrido mundo.

Estamos passando por dores físicas? Lembremo-nos de sua sede ardente.
Nossa dignidade foi ofendida? Ele foi crucificado sem roupas.
Sentimo-nos como se estivéssemos em meio às trevas? Ele também sentiu.
Sentimo-nos abandonados? Ele foi abandonado pelo Pai.

Jesus, o Filho de Deus sem pecado, era, obviamente, perfeito. O curioso é que ele só podia ser perfeito em sua obra pela obediência à vontade do Pai. Para ser mais exato, a vontade do Pai tinha de incluir sofrimento.Se Jesus precisou sofrer para cumprir inteiramente a vontade do Pai, por que estaríamos isentos?

A SEDE, O SOFRIMENTO E VOCÊ

Assim como entramos neste mundo trazendo conosco a sede física, também possuímos a sede espiritual embutida na alma.Temos dentro de nós sede de comunhão, não apenas com as outras pessoas, mas com o Deus que nos criou. O que é compreensível, pois fomos criados para seu prazer. Alguns decidem extinguir essa sede com álcool, sexo, dinheiro ou poder. Outros vivem à base de medicamentos, porque não conseguem suportar a dor do próprio vazio. Outros ainda preenchem a vida com prazeres, tentando sobreviver pelo estímulo contínuo das sensações do corpo. Todos esses bebedouros dão a falsa ilusão de sustento, mas apenas contaminam o homem e o mantém afastado da verdadeira água.

A questão não é se temos sede — pois todos temos —, e sim até quando teremos sede. Ficamos especulando sobre como se sentem os que estão no inferno. Se pudessem falar, o que diriam? Jesus contou uma história que demonstra como a sorte do rico e do pobre podem ser invertidas na eternidade. Havia um mendigo chamado Lázaro, que comia das migalhas da mesa do rico. Quando ambos morreram, o rico foi para um lugar de tormento; Lázaro, para um lugar de consolo. Na verdade, Lázaro, bendito seja, estava na companhia de Abraão.

Ora, o rico não tivera tempo para Lázaro quando estiveram juntos neste mundo, mas agora que estavam na eternidade, ele disse a Abraão: "Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo" (Lc 16.24). O que as pessoas que estão no Hades (em algum momento serão lançadas no inferno) dizem? Atormentadas pelo fogo, gritam: "Estou com sede!".

É lembrarmos da Água da vida que poderíamos ter desfrutado na terra e que poderia ter-nos levado ao céu. O inferno é um lago de fogo, lugar de sede eterna e inextinguível.

Felizmente, Jesus sofreu com os lábios ressecados para que pudéssemos beber das fontes da salvação. Ele suportou a sede do inferno para que o fogo fosse arrefecido para nós. Sobre os que estão nos céus, lemos: "Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede. Não os afligirá o sol, nem qualquer calor abrasador, pois o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor; ele os guiará às fontes de água viva. E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima" (Ap 7.16,17).

Jesus bebeu do cálice da morte para que pudéssemos beber do cálice da vida. Ele sorveu o cálice da ira para que bebêssemos do cálice das bênçãos. "Conheça o Cristo sedento na cruz, e sua alma jamais tornará a sentir sede". Tome agora um gole da água da vida, e irá desfrutá-la para sempre.

Warren Wiersbe disse: "Havia três cálices no Calvário". O primeiro lhe foi oferecido quando chegou à cruz. "Chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar da Caveira, e lhe deram para beber vinho misturado com fel; mas ele, depois de prová-lo, recusou-se a beber" (Mt 27.33,34). A palavra "fel" tem diversos significados. Nesse contexto, é uma erva venenosa, possivelmente ópio. Esse cálice continha vinho misturado com fel, um sedativo que visava aliviar a dor. Era o cálice da caridade, que ele recusou.

O segundo cálice foi o da compaixão. Como já vimos, quando Jesus clamou "Tenho sede", um soldado embebeu uma esponja em vinagre, prendeu-a em uma vara e ergueu-a até ele. Aparentemente, a esponja úmida apenas lhe tocou os lábios.

Mas houve ainda o terceiro cálice, naquele dia no Gólgota — o da iniqüidade, que Jesus bebeu até o fim. "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres" (Mt 26.39). Então, quando Pedro puxou da espada para defender seu Mestre, Jesus repreendeu-o: "Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18.11). Era a taça da ira de Deus, cheia até a borda.

Isso explica por que ele se recusou a beber o lenitivo: queria beber todo o cálice, sem desperdiçar uma única gota. Esse era o cálice que ele temia, e ainda assim decidiu levá-lo aos lábios. Era o cálice da iniqüidade, bebido inteiramente, por você e por mim.

No início de seu ministério, esse Jesus, que agora estava sedento, bradou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva" (Jo 7.37,38). Ele podia prometer água viva à mulher que encontrou no poço, porque sabia que iria levar sobre si a sede daquela mulher. "Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4.13,14).

Não é de admirar que possamos ler no último convite que aparece na Bíblia: "O Espírito e a noiva dizem: 'Vem!' E todo aquele que ouvir diga: 'Vem!' Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida" (Ap 22.17; grifo do autor). Os que se achegam ao que um dia teve sede jamais voltarão a sentir sede.

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