terça-feira, 14 de julho de 2009

Os brados da cruz - Erwin Lutzer

UM BRADO DE ANGÚSTIA

"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?"
Mateus 27.46

Somente na cruz podemos ver o amor de Deus de maneira absolutamente clara. Vemos sua maior iniciativa para nos alcançar, seu mais forte desejo de nos resgatar. O próprio Deus veio para o lado do abismo em que estávamos, disposto a sofrer conosco e por nós.

Na cruz, a imutável santidade de Deus e seu amor ilimitado entraram em conflito, e, com um grito de angústia, fomos salvos. Os primeiros três brados da cruz foram emitidos à luz do dia. Mas nesse momento o sofrimento do Criador foi envolto por trevas. Esse brado de abandono, como é chamado, ocorreu apropriadamente no meio das sete frases. É ele que nos faz adentrar o mistério de nosso Deus sofredor.

"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonas-te?"(Mt 27.46; Mc 15.34).

Se não formos cautelosos, podemos considerar o Filho amoroso, e o Pai, cruel e insensível.Essa noção desfaz-se diante do amor de Deus. Na verdade, a obra salvadora de Cristo começou no coração do Pai.O versículo mais conhecido da Bíblia nos ensina que "Deus tanto amou o mundo..." (Jo 3.16). E Zacarias disse que Cristo veio "por causa das ternas misericórdias de nosso Deus" (Lc 1.78). Temos acesso à salvação porque nosso Pai é um Deus redentor, que nos ama.

Cristo não morreu para que o Pai se tornasse amoroso, pois ele nos amou desde a fundação do mundo. A vontade do Pai e a vontade do Filho combi¬nam em um amor abnegado e perfeito. Jesus clamou "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?", mas não devemos pensar que o Pai e o Filho se separaram em "essência" e "ser". Ocorreu uma interrupção no seu relacionamento, não a ruptura na unidade fundamental existente entre o Pai e o Filho.

Na cruz foram convergidas todas as forças do universo: o homem fez sua parte assassinando o Filho de Deus e mostrando a maldade de seu coração; Satanás fez a parte dele esmagando a semente da mulher e demonstrando ridícula hostilidade; Jesus realizou uma obra, pois morreu "o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus" (1 Pe 3.18); por fim, Deus fez a parte dele demonstrando sua justiça e seu amor, quando derramou sua ira sobre o Filho.

Para que Deus nos abençoe, ele deve dar as costas a si mesmo. Sem nenhuma dúvida, devemos nos aproximar da cruz maravilhados.

O MISTÉRIO DAS TREVAS

Jesus foi crucificado na terceira hora, entendemos que isso quer dizer nove da manhã. Logo, ele ficou pendurado por três horas sob o sol da manhã, mas na sexta hora, ou seja, ao meio-dia, as trevas cobriram a terra. Com o Sol a pino, o mundo mergulhou nas trevas. Após três horas de luz, vieram três horas de escuridão. Não se tratava de um eclipse. O sol havia sido escondido por um ato sobrenatural divino.

E por que se fez noite ao meio-dia?

A escuridão está sempre associada ao castigo de Deus devido a um grande pecado. Nela, vemos o juízo de Deus sobre os homens perversos que trataram seu Filho com desprezo e crueldade. E, em uma acepção mais profunda, partilhamos com eles da mesma condenação, pois foram nossos pecados que puseram Jesus na cruz. Se viermos a amar o pecado, estaremos amando o mesmo mal que fez aqueles pregos serem atravessados nas mãos e nos pés de nosso Salvador. Assim como abominamos a faca usada para assassinar uma criança, devemos abominar o pecado que causou a morte de Jesus. A escuridão foi estabelecida por causa da culpa de todos nós.

Mas ainda há outro motivo para a escuridão. Ela representa o juízo do Pai contra o Filho. Naquelas horas de trevas, Jesus tornou-se legalmente culpado pelos nossos pecados e por eles foi julgado. Pense nisto: legalmente culpado de genocídio, abuso de menores, alcoolismo, assassinato, adultério, atividades homossexuais, ganância e coisas semelhantes. Nada mais adequado que manter encoberto aos olhos humanos o momento em que "Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado".Somente quando ele morreu, a luz retornou.

O MISTÉRIO DA PERGUNTA

Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?"

Que diferença das experiências anteriores com o Pai!

No jardim do Getsêmani, Jesus teve um Deus que o fortaleceu. Na cruz, o mesmo Deus lhe deu as costas. No Getsêmani, ele podia chamar doze legiões de anjos que o teriam salvado rapidamente. Antes disso, afirmara que o Pai não o deixava só. Agora, o Pai lhe dava as costas. No Getsêmani, o Filho foi tentado a abandonar o Pai. Na cruz, o Pai abandonou o Filho.

O sofrimento do Filho já era terrível, mas suportá-lo sem a presença do Pai aumentava o horror. Não se engane: tratava-se de verdadeiro abandono por parte do Pai. "Abandonado." É uma palavra forte. Um homem abandonado por seus amigos. Uma esposa abandonada pelo marido. Uma criatura abandonada pelo criador. Um filho abandonado pelo pai. O Filho era amado pelo Pai desde a eternidade. A presença do Pai era seu único prazer. A ocultação da face do Pai era o gole mais amargo do cálice de tristeza que ele decidiu beber.

Dennis Ngien argumenta que um Deus que não pode sofrer é um Deus que não pode amar. Se Deus não pudesse sentir a dor de seu povo, seríamos tentados a dizer que Deus é indiferente aos nossos problemas. "Deus sofre", escreveu Dennis Ngien, "porque quer amar".

Talvez Bonhoeffer estivesse certo quando escreveu da prisão: "Somente o Deus que sofre pode [nos] ajudar".

Se apenas a natureza humana de Cristo sofreu na cruz, então não houve verdadeira Encarnação. Na verdade, isso levaria à conclusão de que apenas um homem morreu na cruz, e não um Deus-homem. Como pais, sabemos que se víssemos nosso filho morrer, ele não seria o único a sofrer. Da mesma forma, nosso Pai celestial sentiu a dor do Filho amado. Deus teve de lhe dar as costas, para que ele sofresse o castigo por nossos pecados.

Deus escolheu sofrer. Ele escolheu redimir a humanidade pelo sofrimento de seu Filho. Somos chamados a crer que, da perspectiva da eternidade, seu plano era o melhor.

Se nós, que somos pecadores redimidos, consideramos aterradora a idéia de ser abandonados por Deus, pense no sofrimento do Filho, que por toda a eternidade havia estado ao lado do Pai.Imagine-o sendo abandonado! Sua santidade estava em contato com todo tipo de impureza. Ainda assim, vemos em seu brado confiança e esperança. Ele disse: "Meu Deus!Meu Deus". Ele ainda chamava o Pai de "Meu Deus". O Pai ainda lhe pertencia. A agradável comunhão havia terminado, mas o Filho estava absolutamente cônscio de que a presença do Pai retornaria. A retirada da presença do Pai não significava a retirada de seu amor. No fim do escuro túnel, havia luz. Poucas horas depois diria: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46).

Não é de admirar que Lutero, ao contemplar esse texto, tenha ficado aflito com esse mistério, exclamando: "Deus abandonando Deus. Nenhum homem pode compreender isso!".Todavia, as trevas lembram-nos do horror e do mistério. Um mistério que homem algum pode entender.

O MISTÉRIO DO SILÊNCIO

"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?"

O clamor ecoa pelo céu silencioso.

Então, por que o Filho foi abandonado pelo Pai? Muitos não compreendem por que Deus esqueceria quem quer que seja, quanto mais o próprio Filho, a quem ele encarecidamente amava.

O Pai abandonou o Filho porque sua santidade o exigia. Somente Jesus podia resistir à indignação do Pai contra o pecado. Somente Jesus podia suportar a ira que nós tão amplamente merecíamos.

Imagine Jesus coberto com o mal. Visualize seu pecado no peito de Jesus.

Jesus se sacrificou por muitos, então teve de resumir em apenas três horas uma eternidade no inferno. Da melhor forma que pudermos, devemos compreender que foi um sofrimento infinito para o infinito Filho de Deus. Ele estava recebendo o que era devido a nós. A ira do Pai ardeu sobre o Filho quando foi feito o acerto de contas. Pecados indescritíveis estavam em contato com santidade e justiça infinitas.

As trevas físicas simbolizavam a separação entre Cristo e o Pai, que é luz. Isso explica por que ele teria preferido não beber desse cálice. Ao longo de toda a vida, sofrera nas mãos dos homens. Em determinados momentos, sofreu nas mãos de Satanás. Mas agora sofria nas mãos de Deus.

Ele foi abandonado nas trevas exteriores para que pudéssemos caminhar na luz.

O MISTÉRIO DO CORAÇÃO HUMANO

A multidão que zombava tornou-se triste e inquieta durante as três horas de trevas. Era de imaginar que estivesse tremendo de medo, pensando, nervosamente, se a luz do Sol algum dia iria retornar. Afinal de contas, talvez aquele fosse o Filho de Deus.

O que teria sido necessário para que aquelas pessoas recuperassem o bom senso e aceitassem a Jesus como o Filho de Deus? Então sou obrigado a perguntar: "O que é necessário para que as pessoas que conheço caiam em si, no que se refere a Cristo?". Hoje, assim como naquela época, homens e mulheres endurecem o coração ao deparar com o que parece extremamente óbvio aos que estão abertos para a verdade. As credenciais de Cristo estão disponíveis a todos os que tiverem interesse. Quanto mais claro isso fica, mais duro tem de ser o coração do homem para não aceitar.


LIÇÕES TRANSFORMADORAS

A principal finalidade da cruz não era para nós, mas para Deus. Sim, Jesus derramou seu sangue por nós, mas é ainda mais verdadeiro dizer que ele der¬ramou seu sangue pelo Pai. Quando o sangue foi passado nos umbrais das casas no Egito, foi posto lá para o bem das famílias, mas também foi posto por Deus. Jeová disse: "Quando eu vir o sangue, passa¬rei adiante..." (Êx 12.13). Não fazia a menor dife¬rença se os membros da família tivessem cometido pecados grandes ou pequenos. Quando o anjo da morte via o sangue, a casa estava isenta do juízo.

A morte de Cristo foi um "sacrifício de aroma agradável a Deus" (Ef 5.2). Jesus teve de morrer para demonstrar que Deus é justo. Deus Filho pagou a Deus Pai por aqueles que aceitariam a dádiva da vida eterna. Lutero dizia que se não fosse verdade que Deus morreu por nós, mas somente um homem, estaríamos perdidos.

"Nunca o deixarei, nunca o abandonarei" (Hb 13.5). Paulo assegurou-nos de que nada nos separaria do amor de Cristo (Rm 8.35-39).

Jesus atravessou as trevas para que tivéssemos luz. Ele foi amaldiçoado para que fôssemos abençoados. Sofreu os tormentos do inferno para que desfrutássemos o céu com ele.Podemos esconder-nos atrás dos muros de sua graça e sabermos que estamos a salvo da ira.

O pecado sempre exige pagamento. Ou Jesus arca com nossos pecados, ou arcamos nós.Ou somos salvos pela sua rejeição, ou devemos suportar nossa rejeição por toda a eternidade. Se os que estão no inferno clamarem "Por que me abandonaste?", o céu permanecerá em silêncio, pois eles receberam a justa recompensa pelos seus atos. Cristo dirá: "Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!" (Mt 7.23).Viveu em trevas, morreu em trevas.

Para os que morrem em Cristo, as trevas já passa-ram. "Deus é luz; nele não há treva alguma" (1Jo 1.5). Vive na luz, morre na luz.

Não é de espantar que o adoremos. Não é de admirar que nos submetamos a ele. Não é de espantar que o sirvamos.

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