quinta-feira, 16 de julho de 2009

Os brados da cruz - Erwin Lutzer

UM BRADO DE VITÓRIA

"Está consumado!" João 19.30

Todos nós nascemos com uma data de vencimento. Você e eu podemos não ser suficientemente afortunados a ponto de saber exatamente quando faremos a transição desta vida para a próxima. Mas, prontos ou não, a morte nos alcançará, gradual ou repentinamente.

Naquele dia, eis a pergunta inevitável: "Será que terminamos o que Deus queria que fizéssemos, ou vivemos de acordo com nossos desejos, dando apenas rápida atenção a Deus?" Quantas oportunidades desperdiçamos e quantas tarefas deixamos inacabadas? E o que fizemos é o que será posto à prova no dia do Juízo? Por mais que desejemos nos isentar, seremos chamados a prestar contas.

É claro que esperamos poder dizer que terminamos o que Deus nos deu para fazer. Mas somente Jesus pôde dizer essas palavras de forma absolutamente verdadeira.

"Está consumado", o sexto brado, seguiu-se imediatamente ao brado de agonia, "Tenho sede", proferido logo após o brado de angústia: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mt 27.46; Mc 15.34; Jo 19.28,30). Embora ele tivesse encerrado de forma traumática seus dias na terra, morreria com a satisfação de saber que o propósito de sua vinda fora cumprido com sucesso.

Nessas palavras, encontramos a certeza de nossa salvação, a convicção de que nossos débitos para com o Pai foram pagos por outra pessoa.

Um homem que estava à morte disseme: "Vivi para mim mesmo durante toda a minha vida, e agora terei de defrontar-me com Deus". Assegurei-lhe de que Jesus morreu sem se arrepender de nada, para que ele pudesse perdoar o que lastimávamos. Ele completou sua obra para que, a despeito de nossa obra incompleta, pudéssemos entrar no céu. Ele alcançou os critérios de Deus para que pudesse compensar nossas deficiências. Obviamente, devemos viver toda a nossa vida em função de Deus, mas, como aprendeu o ladrão agonizante, mesmo os que não têm boas obras para apresentar podem receber o dom da vida eterna.

Está claro que quando ele disse "Está consumado", o termo englobava toda a nossa salvação.Ele pronunciou a palavra em voz alta (isso pode ser verificado nas passagens análogas de Mt 27.50 e Mc 15.37). Quis que todo o mundo ouvisse aquela palavra em especial, que ecoaria por vinte séculos. Ele não disse "É o fim", porque isso iria significar que ele havia sido morto e derrotado. Não, não era seu fim, mas o início de um novo capítulo em sua existência eterna.

Jesus deu o maior brado de vitória em toda história da humanidade. Ele afirmou que havia completado, com sucesso, uma grande e poderosa obra. A vida dele na terra estava encerrada, não como um fracasso, mas como o clímax de um plano eterno.

É claro que temos de perguntar de maneira mais específica: "O que estava consumado?". Não limitemos essa palavra a apenas parte da missão, vejamo-la como o cumprimento do grande plano salvífico de Deus. Se Jesus não o tivesse concluído, estaríamos condenados. Felizmente, ele concluiu o que começou.

SEU SOFRIMENTO ESTAVA CONSUMADO

Não devemos nos esquecer de que Jesus nasceu para sofrer.Suas atribuições exigiam sofrimento, conforme o cronograma firmado entre ele e seu Pai.Ainda que seus amigos mais íntimos o aceitassem, a sociedade em geral considerava-o, na melhor das hipóteses, um incômodo, e, na pior, um agitador possuído pelo demônio. As autoridades religiosas queriam apedrejá-lo. Outros queriam marginalizar seu ministério em expansão com falsas acusações e ridicularizações. Os cidadãos de sua cidade natal, Nazaré, conspiraram para jogá-lo de um precipício, mas não conseguiram, porque o tempo ainda não havia chegado (Jo 7.6). A rejeição magoa.

Mas agora estava terminado.

Os poderes seculares de Roma não davam a menor importância às suas crenças, nem os governantes se sentiam ameaçados por suas afirmações. Eles o viam apenas como uma ameaça à estabilidade da sociedade judaica, que estava sob constante controle e vigilância. Sentiram prazer em fazê-lo passar por uma série de julgamentos de fachada, e então realizar o trabalho sujo de crucificá-lo. O que importava era que as autoridades judaicas fossem apaziguadas, não que o veredicto fosse justo. A injustiça dói.

Mas agora estava terminado.

Já os discípulos declaravam lealdade, mas recuaram quando o compromisso se tornou custoso. Sabiam que era perigoso ser amigo de alguém que era odiado e que havia sido condenado e crucificado. Judas beijou sua face, mas nessa exteriorização de amor havia amarga traição. Os outros discípulos (com exceção de João) fugiram para se esconder, na esperança de não serem os próximos convocados para um compromisso no Gólgota. A covardia deles, quando Jesus mais precisava, trouxe tristeza.

Mas agora estava terminado.

Na cena do crime, vemos as longas pontas dos espinhos apertadas contra a cabeça de Jesus. Lembramos dos cortes em sua carne, quando foi amarrado a um poste e chicoteado. Lembramo-nos de como cambaleou sob o peso da cruz. Recordamos a crucificação com sua dor e crueldade. Pensamos na separação do Pai e na sede excruciante.

Mas, agora estava terminado.

Felizmente, seu sofrimento havia chegado a um termo. E, apesar de aqueles que o seguem sofrerem por diversas razões e de formas distintas, temos a esperança de que algum dia nosso sofrimento também terminará. Independentemente do que iremos enfrentar — seja nossa morte iminente, seja um fardo emocional interminável —, um dia poderemos dizer: "Está consumado!". Suas feridas terão um fim.O que importa é termos suportado tudo com a firme convicção de que o sofrimento é parte do plano divino. Jesus sabia disso, e nós também devemos saber.

Não foi apenas o sofrimento de Jesus que chegou a um fim. Ele estava se referindo à obra realizada pelo seu sofrimento. A missão para a qual ele havia se preparado, em sua jornada do céu à terra, havia terminado. O sofrimento não era uma finalidade em si mesmo. O tormento era uma parte necessária do propósito maior de Deus. Ele viera ao mundo para "[salvar] o seu povo dos seus pecados" (Mt 1.21). Nossa salvação agora estava assegurada.

O SACRIFÍCIO ESTAVA CONSUMADO

No Antigo Testamento, os sacerdotes ofereciam sacrifícios, mas Jesus foi tanto sacerdote quanto sacrifício. O pagamento dele cobriu o débito que eu tinha.

Na cruz, a justiça de Deus foi plenamente satisfeita quando nosso substituto celestial pagou o elevado preço de nosso resgate.

Ele pagou o saldo de nosso pecado até o último centavo.

Isso significa que meus pecados estão em Jesus, e não em mim. Sim, existe pecado dentro de mim, mas não sobre mim. Minha natureza pecaminosa fica me atraindo para o pecado, e até mesmo em meus melhores momentos, meu trabalho é maculado por motivos egoístas. Mas, do ponto de vista legal, sou aceito por causa dos méritos de Jesus.

Tenho vestes novas e uma ficha limpa no céu. Não há mais nada que possa ser imputado a nós.Graças a Jesus, "dos [meus] pecados e iniqüidades" (Hb 10.17) Deus jamais se lembrará.

Jesus pagou por tudo,
A ele tudo devo.
O pecado deixou uma marca carmesim,
Que ele lavou, deixando tudo branco como a neve.

A DERROTA DE SATANÁS

"Está consumado!"

Jesus afirmou: "Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo" (Jo 12.31). A sentença fora proferida, muito embora não tivesse sido executada.

Como eu queria que uma câmara de vídeo tivesse registrado o drama que ocorreu no mundo espiritual, naquele dia, no Calvário. Uma batalha cósmica foi travada. O Diabo estava lá, Deus estava lá, Cristo estava lá e nós estávamos lá. Leia as palavras de Paulo, que as explicarei em breve:

Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz, e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz (Cl 2.13-15).

Imagine um tribunal. Deus está lá e conhece melhor que nós a extensão de nosso pecado e de nossa culpa. O Diabo, nosso acusador, aparece para argumentar contra nós. Ele lembra a Deus que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Ele diz a Deus, de modo bastante convincente, que profanaríamos as moradas celestiais caso fôssemos admitidos em seus domínios sagrados. Ele diz que o Todo-Poderoso poderia ser acusado de se associar com homens impuros, o que colocariam em dúvida a honestidade e a santidade de Jeová. O maligno também argumenta que devemos receber a mesma pena que ele. Se ele tem de sofrer eternamente pelo seu pecado, por que seríamos isentos, se também pecamos? Se o tamanho do pecado é determinado pela grandeza daquele contra quem é cometido, somos culpados de grandes transgressões.

Cristo entra na sala.

Embora ainda não tivéssemos nascido, os pecados que cometeríamos 2 mil anos mais tarde estavam registrados lá. A lista incluía tudo que Satanás havia dito a nosso respeito, bem como os pecados secretos que só eram conhecidos pelo Deus onisciente. Somente ele conhece a extensão de nosso pecado e a severidade da pena aplicável.

Quando Jesus disse "Quitado", o castigo que merecíamos foi cancelado. Se Deus ainda esperasse que pagássemos algo após Jesus saldar nosso débito, ele seria injusto. Nosso débito foi inteiramente pago, tanto que jamais será exigido pagamento adicional.

Deus destruiu os argumentos de Satanás ao nos declarar perdoados. Foi demonstrado que as acusações eram fraudulentas. Deus, "tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público" (Cl 2.15).

Satanás nos persegue, apesar de ter sido derrubado por aquele que é maior que ele.Do ponto de vista de Deus, tanto a vitória quanto o julgamento do Diabo já aconteceram na cruz. Vimos o raio e tão-somente aguardamos o estrondo.

Graças à derrota de Satanás, mudamos de reino, "pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado" (Cl 1.13). Se Satanás não pode nos destruir com a culpa, tenta nos destruir com o medo, em especial o medo da morte, mas isso é inútil.

Sim, lutamos contra Satanás nos dias de hoje, mas o resultado da luta já está definido. Não há dúvida quanto ao desfecho.

PECADORES SEGUROS DE QUE IRÃO PARA O CÉU

Na passagem de Colossenses já reproduzida aqui, lemos: "Ele nos perdoou todas as transgressões" (Cl 2.13). Quantos de nossos pecados estavam no futuro quando Cristo morreu? Naturalmente, todos eles. E o que acontecerá com os pecados que você cometerá amanhã e depois de amanhã? A resposta, como seria de esperar, é que, para os que crêem em Cristo, até mesmo os pecados futuros estão perdoados. Se não fosse assim, não teríamos como ter certeza de nossa salvação.

É claro que ainda precisamos confessar nossos pecados, não para manter a condição de filhos do Todo-Poderoso, mas para conservar a comunhão com o Pai. E, se não caminharmos obedientemente, seremos disciplinados. Mas para os que crêem, seus pecados foram legalmente cancelados.

Podemos exultar na segurança de nossa salvação, porque fomos absolvidos completamente e para sempre.

Escreva seus pecados em um livro contábil e registre "Quitado" do lado.

Um aborto: "Quitado"
Fornicação: "Quitado"
Traição: "Quitado"
Ganância: "Quitado"
Responsabilidades abandonadas: "Quitado"
Comportamento criminoso: "Quitado"
Egoísmo: "Quitado".

Verdade seja dita, não temos a menor idéia da quantidade de pecados que cometemos, pois não podemos nos recordar de todos nem reconhecê-los como pecados. E, obviamente, nosso maior pecado é o egoísmo, quando deixamos de seguir a seguinte ordem: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento" (Mt 22.37). Não é de estranhar que leiamos: "Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Rm 3.23). Felizmente, temos um Salvador real, que nos salva de pecados reais.

O caminho para o céu é estreito, e o caminho para a destruição é largo. Os que tomam para si a obra de Cristo têm a segurança de que seu destino eterno está garantido. Pois, se cremos que Jesus fez tudo que era necessário para que nos apresentássemos diante de Deus e aceitamos que ele morreu por nós, seremos salvos e sabemos disso.

Sobre uma vida que não vivi
Sobre uma morte que não morri
A morte de outro — a vida de outro
Deposito a minha alma eternamente.


O PAGAMENTO FOI ACEITO

Podemos estar certos de que o Pai concordou com o Filho em que a penitência havia sido realizada. Logo após o Filho ter dado o brado final, lemos: "Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se partiram" (Mt 27.51). O caminho para Deus agora estava aberto.

Em vez de ser restrito ao sumo sacerdote, que entrava no Santo dos Santos apenas uma vez por ano, o acesso a Deus agora era possível a todos os que chegassem por meio de Cristo. Com a barreira de nossos pecados derrubada, agora podemos nos aproximar mediante o sangue de Cristo (Hb 10.22; Ef 1.13).

Depois disso, Jesus foi posto em um sepulcro que pertencia a José de Arimatéia. Mas, quando os discípulos visitaram o local onde fora posto, descobriram que a pedra havia rolado e que o corpo de Jesus não estava lá! Mais tarde, ele revelou-se a eles, e eles se deram conta de que ele havia ressuscitado dos mortos. Essa foi a prova, caso fosse necessário ter uma, de que o Pai havia aceitado o sacrifício do Filho. Aquele era o Filho em quem o Pai se "agradava".

Quarenta dias mais tarde, Jesus subiu aos céus, partindo do monte das Oliveiras. Lá ele reina, não apenas por causa de quem é, mas também por causa do que ele realizou.

MEU APELO A VOCÊ

Se você, meu amigo, jamais recebeu Jesus como seu Salvador pessoal, recomendo que o faça neste instante. A questão que você tem diante de si não é a grandeza de seu pecado, mas o valor do sacrifício oferecido por Jesus. Obviamente, é melhor que você viva uma vida decente em vez de uma vida criminosa. Mas, no fim, é o pagamento feito por Cristo que salva, não nosso estilo de vida. Não há mais nada que possamos fazer, a não ser receber esse dom gratuito.

Se tentarmos acrescentar algo à obra de Jesus — rituais, penitências ou peregrinações —, na verdade nós a estaremos diminuindo.

Nós não podemos acrescentar ao que Jesus fez nossas boas intenções ou boas obras. Acrescentar algo à dádiva de Jesus é destruí-la por completo. Deus não quer nosso mérito, e sim nossa disposição de aceitar o pagamento feito por Cristo a nosso favor.

Jesus fez em seis horas o que nenhum ser humano seria capaz de fazer durante toda a eternidade. A justiça de Deus junto aos que rejeitam seu Filho jamais será satisfeita, pela simples razão de que somente ele pode satisfazer suas exigências.

A boa notícia é que não precisamos ajustar o farrapo que vestimos para transformá-lo nas finas vestes de linho da justiça de Jesus. Spurgeon perguntou: "Por que você iria acrescentar seu centavo falsificado ao caro resgate pago por Cristo na tesouraria de Deus?". Não admira que cantemos:

Para morrer, ele foi levantado "Está consumado", foi o seu brado; Agora no céu, ele é exaltado; Aleluia! Que Salvador!

Felizmente, os que confiam em Cristo têm a cer¬teza de que "está consumado".

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