domingo, 31 de maio de 2009

O Senhor do impossível - Lloyd John Ogilvie

DEIXE DEUS SER DEUS José

É desconcertante ver como a vida torna algumas pessoas tristes e outras graciosas. Duas pessoas podem atravessar o mesmo vale de circunstâncias desanimadoras. Uma sai com ressentimento e desânimo, a outra com renovado vigor e alegria. Para alguns, a tragédia os edifica; mas para outros, os desmorona. Alguns crescem; outros murcham. Por quê?

O que acontece a nossos sonhos pode nos tomar rudes ou afáveis. Todos nós possuímos planos, esperanças e perspectivas para a vida. Raras vezes eles chegam a se concretizar do modo exato como antecipamos. Não obstante, alguns superam os contratempos na realização de seus sonhos certos de que Deus está elaborando um plano mais importante, enquanto outros imobilizam-se pela derrota, mergulham em amarga auto-incriminação ou culpam as pessoas ao seu redor pelas desigualdades da vida. O ponto em questão é: como você procede quando as circunstâncias parecem se opor aos seus sonhos mais acalentados? Ou, como uma mulher perguntou indignada: "O que você faz quando a vida lhe dá um duro golpe?"

Veja o que acontece a alguns de nós. Deus nos chama para ser sonhadores. Ele deseja dar-nos uma visão do que a vida pode ser. Em seguida, mediante a nossa oração perseverante, ele nos oferece uma chamada especial que se ajuste com perfeição aos talentos que nos concedeu e aos dons espirituais que nos confiará. Forma-se em nossa mente um quadro de nosso destino. Sua chamada ressoa em nossa alma. Firmamos um compromisso de seguir o Mestre até às aventuras mais sublimes. E, então, as circunstâncias adversas se levantam qual nevoeiro a nos separar do calor e do esplendor do sol. O que aconteceu? Deus inverteu a sua orientação?

Era nosso sonho apenas auto-engrandecimento?

Uma das lições mais difíceis e de maior desafio na escola da obediência e da fé, é que o Deus que concede o sonho também prepara o sonhador para concretizá-lo. O que atravessamos quando nos movemos em direção aos alvos que Deus nos dá, foi idealizado com perfeição para formar grandes pessoas, capazes de lidar com um grande sonho. Esta é a importante verdade que José tem para nos ensinar.

Faça um presente a si mesmo. Leia os capítulos trinta e sete até o cinqüenta de Gênesis. Conheça um dos mais notáveis sonhadores do Antigo Testamento.

Enquanto acompanhamos a peregrinação de José, vemos cinco poderosas diretrizes para sonhadores desapontados.

A primeira é: Deixe Deus ser Deus de seus sonhos. José, um jovem de dezessete anos, era o filho favorito de Jacó. O patriarca criou o rapaz com um sentimento de que ele era especial e querido, e lhe deu um senso de destino. A sua fé foi bem alicerçada no que aprendeu dos encontros de seu pai com Deus. José possuía confiança própria, mas era uma segurança próxima à arrogância. O favoritismo de Jacó chegou ao cúmulo de dar a José uma longa túnica, com a qual ele andava nos arredores, orgulhoso feito um pavão. Ela simbolizava a aristocracia e a isenção de trabalho árduo. A túnica inflamava o ciúme dos irmãos de José.

Nem José nem seus irmãos estavam preparados para o sonho que ele teve certa noite. O Sol, a Lua e onze estrelas se curvavam ao sonhador. Para um rapaz de dezessete anos, este é um sonho envaidecedor.

Faltou-lhe a humildade para refletir em silêncio no seu coração. Em vez disso, ele contou o sonho a toda a família. Jacó censurou o filho, mas o sonho já tinha causado dano ao ego conturbado de seus irmãos. A sorte fora lançada e uma coisa terrível estava para acontecer.

Jacó enviara José para supervisionar os irmãos no trabalho de pastorear os rebanhos. Quando estes notaram que José se aproximava, a ira e o ciúme de longo tempo subiram-lhes à cabeça: "Vem lá o tal sonhador!", diziam com desdém. "Vinde, pois, agora, matemo-lo, e lancemo-lo numa destas cisternas; e diremos: Um animal selvagem o comeu; e vejamos em que lhe darão os sonhos!" (Gênesis 37:1920).

Somente a intervenção de Rubem (quem colocou a idéia em sua mente?) salvou a José. "Não derrameis sangue; lançai-o nesta cis¬terna que está no deserto, e não ponhais mão sobre ele" (Gênesis 37:22).

Enquanto José gritava, suplicando por so¬corro, os irmãos comiam pão. Nada, senão o próprio homicídio poderia ter expressado melhor o sentimento deles. Uma refeição para celebrar a morte de um irmão!

Mas os desígnios de Deus eram outros. Uma caravana de ismaelitas que ia de Gileade para o Egito se aproximava enquanto os irmãos saboreavam a refeição. Ah! a singular estratégia de um Deus capaz de fazer descobertas felizes! Agora, Judá alia-se a Rubem em sua advertência. "De que nos aproveita matar o nosso irmão e esconder-lhe o sangue? Vinde, vendamo-lo aos ismaelitas; não ponhamos sobre ele a nossa mão, pois é nosso irmão e nossa carne" (Gênesis 37:26-27). José foi vendido.

Você poderia esperar uma série de circunstâncias mais adequadas para contradizer um sonho? Penetre na mente de José levado embora. Sinta o que ele sentiu ao agachar-se cautelosamente em volta da fogueira do acampamento dos ismaelitas à noite. Passe a viver através de noites de solidão e dias exaustivos, da perspectiva de um rapaz de dezessete anos, assustado, só e com saudades de casa. E, contudo, o primeiro passo da preparação do sonhador para o cumprimento do seu sonho havia começado. Grandes coisas Deus reservara para José.

A arrogância devia ceder ao caráter, a autoconfiança à dependência e confiança em Deus apenas. Nada havia de acontecer com José que o Senhor não usasse para torná-lo num útil instrumento.

Deixar Deus ser Deus de nossos sonhos é reconhecê-lo como a fonte da visão para a nossa vida. Quando Deus dá uma esperança e uma expectativa, estas devem ser-lhe devolvidas para que a seu tempo, e segundo o seu plano se realizem. José interpretou mal o seu sonho. Ele seria abençoado para que pudesse ser uma bênção.

Após a comunicação do sonho, convinha que se seguisse a trans¬formação do sonhador. Deus cerra e abre portas. Ele sabe o que faz.

É surpreendente como cada geração deve aprender por si mesma. A única coisa que Jacó não havia sido capaz de partilhar ao filho era que, na luta com o Senhor, o Senhor sempre vence.

Isso nos leva à segunda parte da história de José e à outra verdade que podemos aprender com ele — Deixe Deus ser Deus quando as circunstâncias parecem contestar o seu sonho. José foi vendido a Potifar, comandante da guarda pessoal de Faraó. Embora jovem, José alcançou poder e prosperidade e ficou encarregado de toda a casa do oficial egípcio e de tudo o que tinha. Mais uma vez as circunstâncias pareciam contra o sonhador. Ele foi preso sob falsa acusação. O Senhor era a segurança e o centro de sua vida. Nenhuma circunstância seria capaz de con¬tradizer esse fato. José aprendeu que não achamos a Deus nas circunstâncias; nós é que o trazemos às nossas circunstâncias. A graça de Deus é maior que a aflição da vida.

Nossa oração não deve ser por vidas fáceis, mas por vidas capacitadas por Deus, que se tornam grandes pela sua graça. Algumas dificuldades são, sim, o resultado de rebelião e desobediência, mas se confessarmos a nossa falta poderemos então prosseguir para as questões elevadas que ampliem e abram os nossos corações o bastante para conter o Espírito de Deus.

A grandeza no Espírito surge da confiança e da antecipação. Quando realmente cremos que o Senhor está no comando, podemos descansar na certeza de que seus planos prosseguem através do que está acontecendo conosco e ao nosso redor.

O Senhor é com você. Podemos assumir qualquer coisa com base nesse conhecimento.

A capacidade de José para a liderança, mais seu caráter e per¬sonalidade compelidores e cheios de Deus, atraíram o carcereiro. Uma vez mais ele subiu ao poder, dessa vez como encarregado de todo o cárcere! Deus possui senso de humor, não é verdade?

Que lhe parecem essas situações preparadas por Deus para nos compelir ao sonho que ele nos deu? Tanto o padeiro como o copeiro tiveram sonhos. O sonho estratégico arranjado por Deus foi o do copeiro. Em seu sonho havia uma videira com três ramos que produziam uvas. Ele tomava o copo de Faraó, espremia nele as uvas e dava o vinho a Faraó. José, o sonhador de Deus, num instante fez a interpretação: em três dias o copeiro seria solto e voltaria a servir a Faraó. E aconteceu. Agora, dois anos mais tarde, o copeiro se achava numa posição decisiva para se lembrar do talentoso e enigmático hebreu que encontrara na prisão, pois Faraó teve um sonho estratégico nos planos de Deus para o Egito, para José e, com o tempo, para o nascimento da nação hebraica.

O copeiro lembrou-se de José e mencionou-o a Faraó. Concedida a audiência, José informou a Faraó que não possuía poderes de interpretação de sonhos, mas servia a um Deus poderoso. José aprendera uma dura lição através do sofrimento. O que vemos diante de Faraó é um homem dependente de Deus, que permitira que Deus fosse o Senhor de seus próprios sonhos. A arrogância dos anos anteriores se fora, deixando em seu lugar a humildade que apenas o sofrimento é capaz de produzir.

0 Egito teria sete anos de prosperidade, seguidos de sete anos de escassez.

Faraó ficou tão surpreso com o discernimento de José e com a aplicação prática, que o fez primeiro-ministro, vice-governador de todo o Egito, segundo no poder!

Gostaria de salientar o que Deus está tentando nos transmitir nesse ponto da história de José. Ele não apenas nos dá sonhos e nos prepara para vivê-los, mas a outros também concede sonhos que se ajustem aos nossos e nos levem para a frente, cumprindo assim os seus propósitos para a nossa vida. O Senhor está sempre pronto a desdobrar as necessidades de uma pessoa a fim de cumprir seus propósitos em outra. Pense nas pessoas que chegaram na hora certa para nos ajudar. Algumas eram amigas, outras hostis. Mas Deus a todas usou.

Chegamos, assim, à terceira grande descoberta em nosso estudo da vida de José — deixe Deus ser Deus nos sucessos da vida. Em nenhuma época, no relato de sua magistral liderança do Egito, ele usou o poder para o seu próprio engrandecimento. Serviu a Deus ao servir o Egito, como se sua tarefa fosse nomeação divina. Construiu celeiros e os preparou para os tempos de fome. Ao fazer isso, ele salvou ao Egito e a todos os povos circunvizinhos nos anos de escassez.

Deus dá sucesso espiritual aos que lhe dão a glória.

Há épocas de triunfo, bem como de turbulência na vida cristã. Podemos agradecer ambos a Deus.

A fome que atingiu o Egito também devorou Canaã. Jacó foi forçado a enviar seus filhos ao Egito em busca de trigo. O temor de que algum mal lhes sobreviesse fê-lo reter o filho mais jovem, Benjamim, único remanescente de sua amada Raquel. Isso nos leva ao ponto seguinte, no qual se desenrola a parte final do sonho de José, e também a outro discernimento — deixe Deus ser Deus sobre os fracassos dos que frustraram os sonhos que ele lhe deu.

Em sua primeira viagem ao Egito para comprar comida, os irmãos de José não o reconheceram. Imagine o misto de sentimentos que se apossou de José ao avistar seus irmãos — os mesmos que no auge do ódio e ciúme venderam-no aos ismaelitas! Ele tinha poder para executá-los imediatamente, torturá-los até que admitissem o crime que cometeram, abalá-los ao revelar sua identidade naquele instante. Em vez disso, ele expressa imensa bondade, porém acompanhada de um pouco de humor e intriga. A provação que José impôs a seus irmãos, antes de se dar a conhecer, está de acordo com algumas leis espirituais muito básicas e profundas de relacionamento e reconciliação. Quando permitimos que Deus seja Deus dos pecados de outras pessoas contra nós, devemos servir de mediador do perdão de uma maneira adequada e aceitável.

Isso não é fácil, como se percebe pela forma como José tratou seus irmãos. Era preciso que eles reconhecessem o seu próprio pecado antes que José pudesse oferecer-lhes o perdão. Esse processo o feriu mais que a seus irmãos.

"E como já vos disse: sois espiões" — e acrescentou: — "Nisto sereis provados: pela vida de Faraó, daqui não saireis, sem que primeiro venha o vosso irmão mais novo!" Após lançá-los na prisão por três dias, José jurou-lhes por Deus que manteria um deles na cadeia enquanto os outros fossem a Canaã e trouxessem seu irmão mais novo.

Estranho como as crises de uma nova situação trazem de volta uma culpa não solucionada.

Jacó, ao saber que Simeão fora mantido como refém, foi acometido pela dor e recusou-se a aceder ao pedido do governador do Egito. Mas a fome piorou deixando-lhe pouca escolha. Finalmente, decidiu enviar os filhos de volta ao Egito, levando Benjamim.

José foi brando em sua estratégia por ocasião do segundo encontro com seus irmãos. Ele os cumprimentou de maneira calorosa e, comovido, chorou na presença de Benjamim. Simeão foi solto da prisão e celebrou-se uma grande festa. Gênesis 43:32-34 capta o drama encenado por José. O lugar de José era em uma mesa separada, com os egípcios. Para seus irmãos, dispuseram a mesa com todo o aparato segundo a ordem de nascimento: o mais velho no lugar de honra. Não admira que os irmãos se entreolhassem com espanto. Somente alguém que conhecia a família poderia ter planejado isso! Quem seria esse misterioso vice-governador do Egito? Mas ainda não chegara o momento da revelação. Os irmãos não estavam prontos.

José deu ordens para que todos, exceto seus irmãos, se retirassem. Então, todo o amor e a solidão reprimidos para com sua família se sublimaram em lágrimas e choros tão altos que toda a casa dos egípcios ouviu. Poucas são, nas Escrituras, as exclamações com tanta emoção de dor como do clamor de José a seus irmãos: "Eu sou José; vive ainda meu pai?" (Gênesis 45:3). Ao ficarem espantados ao ponto de perderem a fala, José fez que se aproximassem para constatar que o vice-governador, na verdade, era o irmão que haviam vendido como escravo.

Vendo a culpa estampada na face deles, José suplicou-lhes que não se contristassem ou se indignassem consigo mesmos, mas percebessem que Deus tinha utilizado para bem o mal que haviam cometido.

Quando os irmãos estavam preparados, José concedeu o perdão que havia contido em seu coração. Este, porém, foi dado com a consciência de que Deus usa o pior para produzir o melhor.

Dessa vez os irmãos partiram com provisões completas. A missão deles era trazer Jacó e a família para o Egito. Se o encontro de José com seus irmãos foi triste e emocionante, seu reencontro com o pai haveria de ser o de maior ternura e alegria do Antigo Testamento.

No momento que os dois se encontraram, José abraçou a Jacó "e chorou assim longo tempo". José atravessara uma angústia incrível, esperando por esse momento. Ele confiou em Deus quando tudo parecia impossível. O Senhor do impossível teve a palavra final.

Após a morte de Jacó, os irmãos vieram a José com as derradeiras palavras de instrução do pai: que deveriam buscar o perdão de José. Tal perdão já havia sido concedido, mas o velho e sábio Jacó sabia que os irmãos deviam fazer uma confissão mais clara. A reação a essa confissão tem ressoado através dos tempos como uma das mais belas explicações da providência divina.

Precisamos dar mais importância aos sonhos e visões de nossa vida. Nossa vocação é parte de um plano maior que não pode falhar. Por conseguinte, podemos lidar com os outros de forma mais carinhosa e perdoadora.

Deus usará a vida, as pessoas e as circunstâncias a fim de apressar a realização do sonho que tem para nós.

Os conflitos da vida porventura aproxi¬mam-nos da confiança de José na providência divina? Além disso, tem-nos essa convicção transformado em pessoas perdoadoras e agradáveis? Quando percebemos o carinho com que Deus nos trata, ao mover-nos para frente em direção ao nosso sonho, podemos fazer menos pelos outros? Ele usou a cruz para nos dar a esperança de que além de nossos alvos terrenos temos um destino eterno. E daquela cruz de graça mediadora um, maior que José, disse: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

Um último princípio abrange todos os anteriores — Deixe Deus ser Deus do futuro, enquanto ele executa o seu propósito maior na história. Quando José expirava, fez uma formidável declaração que ressalta sua confiança inabalável em Deus. "Eu morro; porém Deus certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra para a terra que jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó. . . Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui" (Gênesis 50:24-25).

José podia morrer sabendo que nada inverteria a estratégia irrevogável, imutável e impulsionadora de Deus. Podia tirar da mente a preocupação sobre o futuro, porque ele aprendera que Deus é digno de plena confiança.

José é lembrado como um dos maiores homens da história porque permitiu que Deus fosse o Deus de seus sonhos. Ele tornou-se melhor apesar de tudo, em vez de amargo por causa de tudo. E quanto a nós? A vida nos torna azedos ou amáveis? A prova de sermos amáveis é podermos afirmar com José: "Atentem para a vida, meus amigos. Ouçam-me os que vêem os outros como inimigos. O que no momento parece mal, Deus tomará em bem. Eu vou guardar o meu sonho!"

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